Resenha | O terror implícito e cotidiano de Mariana Enríquez em “As coisas que perdemos no fogo”

É difícil definir o gênero literário das histórias reunidas em As coisas que perdemos no fogo, da argentina Mariana Enríquez. Seria Terror? Alguns dos contos utilizam elementos sobrenaturais e remetem a mestres como Stephen King e H. P. Lovecraft (apesar das diferenças, é impossível não lembrar de Carrie, a estranha ao ler Fim de ano; ou não pensar em divindades monstruosas e lovecraftianas em Sob a água negra).

Mas, na maioria das histórias, Enríquez apenas sugere uma presença sobrenatural para criar um ambiente assustador, sendo que essa presença nem sempre se manifesta explicitamente. Pelo contrário, pouca coisa é explicada.

Dito assim, pode parecer que seus contos são frustrantes, o que, definitivamente, não é verdade.

A atmosfera criada pela autora é tenebrosa, asfixiante. Mesmo quando o elemento sobrenatural não se concretiza, a tensão já está instalada no leitor, seja pela sugestão, seja pela ação de seus personagens.

A escritora argentina Mariana Enríquez.
A escritora Mariana Enríquez. (Foto: Reprodução)

Mariana Enríquez imagina situações perturbadoras: violência contra crianças e mulheres, mutilações, grávidas viciadas em crack… Sim, existem assassinos e criaturas sombrias em As coisas que perdemos no fogo, mas a autora também mostra que o terror pode brotar de situações do cotidiano, como uma mudança de casa, um carro quebrado no meio do nada e o contraste entre classes sociais. A loucura e a depressão também aparecem bastante ao longo do livro.

Outro ponto interessante é que a autora dá preferência às protagonistas mulheres e jovens (inclusive crianças e adolescentes), mas que são bem diferentes entre si. Ao longo do livro encontramos tanto personagens fortes quanto frágeis, tanto vítimas quanto algozes.

Eu tinha muito interesse em conhecer As coisas que perdemos no fogo desde que o livro saiu, porém só consegui ler agora. Minhas altas expectativas foram atendidas, ao mesmo tempo em que fui surpreendido.

O livro não é indicado para leitores com estômago fraco, pois as histórias de Enríquez são pesadas e cruas. Trata-se de uma escritora corajosa, capaz de criar relatos fortes, com ambientações impactantes, que ficam na nossa cabeça por bastante tempo após o fim da leitura.


AS COISAS QUE PERDEMOS NO FOGO
Autora:
Mariana Enríquez
Tradução: José Geraldo Couto
Editora: Intrínseca
Páginas: 192
Onde comprar: Amazon


Postado por Lucas Furlan

É formado em Comunicação Social e trabalha com criação de conteúdo para a internet. Toca guitarra e adora música e cinema, mas, antes de tudo, é um leitor apaixonado por livros.

2 comentários em “Resenha | O terror implícito e cotidiano de Mariana Enríquez em “As coisas que perdemos no fogo”

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