Resenha | ‘Este é o mar’: e se existissem entidades mágicas moldando o destino de astros do rock?

Houve um tempo em que músicos de rock tinham uma aura mitológica. Eram vistos como guias espirituais da juventude, ícones de contestação com a capacidade de mudar o mundo. Quando eles morriam cedo, a adoração aumentava: seriam jovens para sempre. Seriam lendas para sempre.

E se existissem entidades mágicas e ancestrais que, em segredo, manipulassem a vida de roqueiros para transformá-los em deuses aos olhos de seus fãs? É com essa ideia inusitada que a argentina Mariana Enríquez trabalha no livro Este é o mar, que foi publicado no Brasil em 2019.

A protagonista do livro, Helena, é uma dessas entidades, chamadas de Luminosas. Ela tem como missão transformar James Evans, vocalista da fictícia banda Fallen, em uma lenda. Passando-se por humana e usando seus poderes mágicos, Helena precisa fazer com que Evans tenha muito sucesso, conquiste uma legião de fãs, componha músicas inesquecíveis — não necessariamente nessa ordem — e morra tragicamente. É isso que fornece a energia vital que as Luminosas necessitam.

A escritora argentina Mariana Enríquez. (Foto: Jindřich Nosek/Wikimedia Commons)

Este é o mar é especialmente interessante pra quem já é familiarizado com a história do rock. Mariana Enríquez conta como suas Luminosas teriam influenciado o destino de nomes como Kurt Cobain, Jim Morrison e Jimi Hendrix, por exemplo. A mitologia criada pela escritora é bem construída, ainda que ela deixe, intencionalmente, alguns espaços em branco para o leitor completar.

Apesar dessa criatividade inicial, Este é o mar não consegue escapar de vários clichês. A partir do momento que o texto descreve os olhos azuis de James Evans, seu corpo magro e definido, sua gentileza com as fãs, etc., já fica óbvio que Helena vai se sentir atraída por ele. Como todo personagem problemático, mas feito sob medida para ser adorado pelos leitores, Evans tem problemas com a mãe e passou por uma infância traumática (com gatilhos de pedofilia, abuso de drogas e abandono). É preciso dizer, porém, que Mariana Enríquez não se apoia nesses clichês no desfecho do livro.

A descrição da infância do vocalista é a única passagem da obra que remete ao excelente As coisas que perdemos no fogo, primeiro livro de Mariana Enríquez publicado no país. Ela é bem mais pesada do que Este é o mar como um todo — ainda que o livro apresente um suicídio e não esconda o uso de drogas por parte de Evans.

No fim das contas, Este é o mar é um livro ok, que não repete o impacto de As coisas que perdemos no fogo. Vale pelo criativo universo criado pela escritora, mas perde força ao apostar num romance proibido similar ao de tantos outros títulos existentes por aí.


ESTE É O MAR
Autora:
Mariana Enríquez
Tradução: Elisa Menezes
Editora: Intrínseca
Páginas: 176
Onde comprar: Amazon


Postado por Lucas Furlan

É formado em Comunicação Social e trabalha com criação de conteúdo para a internet. Toca guitarra e adora música e cinema, mas, antes de tudo, é um leitor apaixonado por livros.

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