Resenha | Marcel Schwob revisita história lendária no ótimo ‘A cruzada das crianças’

Se a versão mais conhecida da lendária cruzada das crianças for verdadeira, trata-se de uma das ideias mais furadas da história da humanidade. Segundo ela, em 1212, um bando de crianças europeias se reuniu para cruzar o Mar Mediterrâneo e reconquistar Jerusalém dos muçulmanos. A única arma que possuíam era a pureza — qualidade supostamente ausente nos cavaleiros que vinham fracassando na mesma missão há séculos.

Estudiosos afirmam que a tal cruzada realmente existiu, mas teria havido um erro na tradução da palavra “pueri” quando a história se popularizou: na verdade, esses cruzados não eram crianças, mas pessoas jovens e humildes.

Se a segunda versão é mais plausível, a primeira, sem dúvida, é muito mais atraente enquanto lenda e literatura. Por isso, foi nela que o francês Marcel Schwob se baseou para escrever o ótimo A cruzada das crianças, obra originalmente publicada em 1896.

À esquerda, o escritor Marcel Schwob (1867-1905). À direita, ilustração sobre a Cruzada das Crianças feita por Gustave Doré. (Via Wikimedia Commons)

A forma como Schwob constrói o livro é muito interessante. Ao invés de contar a história da forma convencional, o autor divide a narrativa em oito relatos de diferentes personagens. Cada um deles apresenta sua visão sobre determinado momento da jornada das crianças, desde o surgimento das primeiras notícias sobre elas até o desfecho inevitavelmente fracassado da empreitada.

Entre os narradores, estão figuras bem diversas, como um leproso e os papas Inocêncio III e Gregório IX. Embora seus pontos de vista sobre a expedição sejam diferentes, nenhum deles é capaz de impedir a jornada. Por vezes, os adultos parecem tão desvairados quanto os pequenos.

Tomemos, por exemplo, o relato do escrevente François Longuejoue, responsável por conseguir os barcos. Ele deseja apenas se livrar o quanto antes daquelas milhares de bocas famintas que chegam ao porto de Marselha, mesmo sabendo como a travessia do Mediterrâneo seria perigosa.

Existem dois relatos feitos por crianças participantes da cruzada, e eles são extremamente comoventes. Com seu estilo clássico, Marcel Schwob transmite a pureza daqueles meninos e meninas, que nem mesmo sabem onde fica Jerusalém. A inocência, que seria um trunfo, acaba se revelando um ponto fraco, sem que, obviamente, eles tenham culpa nisso.

Com tradução de Milton Hatoum e prefácio de Jorge Luís Borges, A cruzada das crianças é uma leitura rápida e tocante. Além de ser ótimo enquanto literatura, o livro ilustra como é perigoso substituir a razão e a sensatez por uma fé cega no que quer que seja.


A CRUZADA DAS CRIANÇAS
Autor:
Marcel Schwob
Tradução: Milton Hatoum
Editora: 34
Páginas: 72
Onde comprar: Amazon


Postado por Lucas Furlan

É formado em Comunicação Social e trabalha com criação de conteúdo para a internet. Toca guitarra e adora música e cinema, mas, antes de tudo, é um leitor apaixonado por livros.

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