Resenha | Sons da fala, de Octavia E. Butler

A Editora Morro Branco lançou em seu site o Projeto Cápsula, que vai disponibilizar gratuitamente contos, ensaios e peças inéditos no Brasil. E o projeto começou muito bem: o primeiro texto disponível é o conto Sons da fala, escrito por ninguém menos que Octavia E. Butler.

Dificuldade de comunicação

Sons da fala (Speech sounds, no original) foi publicado pela primeira vez em 1983 e ganhou o Prêmio Hugo no ano seguinte, na categoria “melhor conto”. Na história, uma doença misteriosa contaminou todas as pessoas. Algumas morreram, outras ficaram com a movimentação comprometida, mas todas, em graus diferentes, passaram a apresentar dificuldades para se comunicar.

Rye, a protagonista, ainda é capaz de falar, mas não consegue mais ler nem escrever. Ela, que antes da epidemia era professora de História, não se lembra mais dos livros que leu e é incapaz de compreender os textos que ela própria escreveu. Depois de perder o marido e os filhos, ela parte para tentar encontrar o irmão em outra cidade e, no caminho, conhece Obsidian. Ele ainda consegue ler e se movimentar normalmente, mas não pode mais falar.

Octavia E. Butler (1947-2006): a “grande dama da ficção científica”.

Paralelos com dos dias atuais

É impressionante como Butler consegue tratar de um tema complexo — a incomunicabilidade — com tanta profundidade em tão poucas páginas. A falta de comunicação gera uma onda de violência que coloca todas as pessoas em risco constante. As mais afetadas pela doença (“as mais debilitadas”) ficam mais agressivas:

“Imóvel, o homem de barba não soltou qualquer som, recusando-se a reagir aos gestos nitidamente obscenos. Era o que as pessoas menos debilitadas costumavam fazer: a menos que fossem fisicamente ameaçadas, recuavam e deixavam quem tinha menos controle gritar e pular. Era como se sentissem que se rebaixavam ao ser tão irritáveis quanto os menos compreensivos.”

Mesmo Rye, que consegue manter a sensatez, sente um lampejo de ódio e inveja de Obsidian ao perceber que ele é capaz de ler. Os personagens perdem a identidade e o sentido da vida. Sem a comunicação e sem a leitura, a civilização regride:

“As crianças de hoje recolhiam os livros como recolhiam galhos: para queimar como combustível. Percorriam as ruas correndo umas atrás das outras e guinchando como chimpanzés. Não tinham futuro.”

Mesmo tendo sido escrito há mais de 35 anos, Sons da fala tem paralelos assustadores com os dias atuais, tão marcados pela falta de diálogo, pela intolerância e pela violência.

A Editora Morro Branco mandou muito bem ao iniciar o Projeto Cápsula com esse conto fundamental, que é um dos mais conhecidos de Octavia E. Butler, “a grande dama da ficção científica”.

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SONS DA FALA
Autora: Octavia E. Butler
Tradução: Heci Regina Candiani
Editora: Morro Branco
Páginas: 28
Onde ler: site da Editora Morro Branco


Postado por Lucas Furlan

É formado em Comunicação Social e trabalha com criação de conteúdo para a internet. Toca guitarra e adora música e cinema, mas, antes de tudo, é um leitor apaixonado por livros.

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