Resenha | Trainspotting, de Irvine Welsh

Trainspotting
Autor: Irvine Welsh
Tradução: Daniel Galera e Daniel Pellizari
Editora: Rocco
Páginas: 288
Onde comprar: Amazon (também disponível no Kindle Unlimited)

Trainspotting foi um dos maiores fenômenos da cultura pop do final do século XX. O polêmico livro de estreia do escocês Irvine Welsh foi publicado em 1993 e logo ganhou status de cult – principalmente depois de ser adaptado para o cinema três anos mais tarde pelo diretor Danny Boyle. Acabei de ler o livro e posso afirmar que o texto de Welsh, mesmo mais 20 anos depois, continua provocativo e perturbador.

Trainspotting se passa na década de 1980 e descreve a rotina de vários jovens desajustados, como Mark Renton, Spud, Sick Boy e Frank Begbie. Vivendo no subúrbio de Edimburgo, na Escócia, e com baixíssimas expectativas na vida, eles dividem seu tempo entre drogas (principalmente heroína), bebedeiras e brigas.

Os capítulos são narrados sob o ponto de vista de diferentes personagens e Irvine Welsh reproduz a forma como eles falariam na vida real. Por isso, seu texto é coloquial e cheio de gírias e palavrões.

Já deu pra perceber que Trainspotting talvez não seja indicado para leitores mais conservadores, né? Mas se engana quem pensa que Welsh usou o livro pra glamourizar as drogas. Longe disso.

Várias situações terríveis e deprimentes aparecem em Trainspotting e o autor as descreve sem meias-palavras. Algumas passagens são escatológicas e chegam a dar ânsia de vômito.

Welsh escreve com conhecimento de causa: ele cresceu na mesma área de seus personagens e, antes de se tornar escritor, também foi viciado em heroína. Inclusive, o livro tem algumas seções chamadas Dilemas de um viciado que foram adaptadas do diário que o autor escreveu durante seu período de reabilitação.

Mas não dá pra negar que Trainspotting também tem trechos muito engraçados, afinal, pessoas idiotas e chapadas tendem a tomar as atitudes mais absurdas e imbecis. As cenas de sexo, por exemplo, são particularmente constrangedoras.

Sem fazer apologias ou julgamentos, Irvine Welsh também deixa claro que, embora cobrem seu preço, as drogas ocupam um vazio existente em seus personagens. E essa é uma das questões mais importantes do livro.

O escritor escocês Irvine Welsh. (Evening Standard)

Os personagens de Trainspotting não têm perspectiva. Em Leith (o subúrbio de Edimburgo onde eles vivem) não há trabalho. As moradias são precárias. O governo é tão ausente que nem percebe que Sick Boy e seus amigos sobrevivem fraudando o seguro-desemprego.

A angústia causada por essa falta de perspectiva (somada aos problemas pessoais de cada um) é aplacada através de meios “alternativos”: Renton usa heroína, Begbie é violento e Rab se torna alcoólatra, por exemplo.

Mas Irvine Welsh não apresenta seus personagens como coitadinhos. Eles fazem suas escolhas e precisam lidar com as consequências.

É impossível falar de Trainspotting sem citar o trecho mais conhecido do livro. Em dado momento, Renton diz que seu consumo de drogas é um ato de rebeldia contra a sociedade. É apenas a justificativa de um viciado, mas Welsh faz com que o personagem proclame um de seus discursos mais lúcidos e contundentes:

“Escolha a vida. Escolha pagamentos de hipoteca. Escolha máquinas de lavar. Escolha carros. Escolha ficar sentado num sofá assistindo a programas de auditório que atrofiam a mente e esmagam o espírito, enfiando uma merda de junkie food goela abaixo. Escolha apodrecer mijando e se cagando em casa, um constrangimento total pros pirralhos egoístas e fudidos que você gerou. Escolha a vida.”

É uma clara ironia contra a sociedade que consegue se manter afastada das drogas, mas que vive anestesiada pelo consumismo e pela acomodação. Esse trecho aparece na metade do livro, mas foi usado, sabiamente, no início do longa de Danny Boyle – tendo como trilha Lust for life, do mestre Iggy Pop. Resultado: uma das cenas de abertura mais marcantes da história do cinema:

Trainspotting é uma leitura que incomoda, mas que é difícil largar. É um livro forte, rebelde, controverso e cheio de energia. Não é pra todos os leitores, mas é fantástico.

É um livro punk – sim, acho que essa é uma boa definição.

Obs.: Irvine Welsh voltou para o universo de Trainspotting em outros dois livros: Pornô, de 2002 (que serviu de base para T2 Trainspotting, de 2017, sequência do filme original) e Skagboys, de 2012, que na verdade é uma prequel. Todos foram lançados no Brasil pela Rocco.

AVALIAÇÃO

5-estrelas-2

Fotos: Lucas Furlan.

4 comentários em “Resenha | Trainspotting, de Irvine Welsh

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