Resenha | O visconde partido ao meio, de Italo Calvino

Na década de 1950, o escritor italiano Italo Calvino (1923-1985) publicou sua célebre trilogia Os nossos antepassados. Ela é formada pelos volumes O visconde partido ao meio, O barão nas árvores e O cavaleiro inexistente, cujos enredos não possuem ligação. Entretanto, todos narram histórias curtas, com situações fantásticas e bem humoradas que são protagonizadas por homens com cargos de nobreza. Apesar de tratar de figuras fictícias do passado, Calvino utilizou esses livros para abordar a condição do homem contemporâneo. A resenha de hoje é sobre o primeiro volume da trilogia, que chegou às livrarias em 1952.

Bala de canhão

O protagonista e personagem título de O visconde partido ao meio é o jovem Medardo di Terralba. Depois de receber o título de nobreza de seu pai, ele se engaja na guerra dos cristãos contra os turcos (apenas “para agradar alguns duques”), mesmo sem ter nenhuma experiência em combate.

Logo em sua primeira batalha, ele é atingido gravemente por um tiro de canhão, que faz com que seu corpo seja dividido em dois. Sua metade direita é recolhida pelos médicos, que conseguem salvar sua vida. O que os doutores não desconfiavam é que aquela parte era a metade ruim do visconde. A bala do canhão não dividira apenas o corpo do personagem, mas também sua personalidade.

Quando Medardo (ou melhor, a metade dele) volta para Terralba, ele, literalmente, está decidido a tocar o terror. O visconde é cruel com pessoas e animais, realiza julgamentos rigorosíssimos e age sempre com maldade e egoísmo. Seus conterrâneos passam a temê-lo e odiá-lo, até que, num belo dia, a metade esquerda e boa de Medardo reaparece inesperadamente. O problema é que esse pedaço do visconde é “insuportavelmente bom” e também começa a incomodar, exigindo atos de caridade e sacrifícios em excesso.

Pra completar, os dois (apelidados de “Bom” e “Mesquinho”) se apaixonam pela camponesa Pamela e passam a disputar seu amor.

O escritor Italo Calvino.

Luzes e sombras

A decisão de Italo Calvino de dividir seu personagem em “bom” e “mau” pode parecer simplista demais, mas foi uma decisão pensada pelo autor para criar o “máximo de contraste” e conseguir um efeito cômico (como ele explica na apresentação). A mensagem do escritor é óbvia: não se deve julgar as pessoas por um único aspecto de sua personalidade; todos têm luzes e sombras em seu interior. Além disso, Calvino também explica na apresentação que o homem contemporâneo é semelhante a Medardo, afinal:

“Todos realizamos uma parte de nós mesmos e não a outra.”

O escritor também dá a entender que a ingenuidade e a sede por experiências dos jovens ajuda-os a não ter uma visão unilateral do mundo. O livro é narrado por um sobrinho do visconde, que ainda era criança quando viu o tio dividido. Sobre o imaturo Medardo, ainda antes do acidente, ele diz:

“Meu tio se achava então na primeira juventude: a idade em que os sentimentos se misturam todos num ímpeto confuso, ainda não separados em bem e mal; a idade em que cada experiência nova, também macabra e desumana, é toda trepidante e efervescente de amor pela vida.”

Leitura contra os extremos

Calvino sempre trabalhou com símbolos e alegorias e em O visconde partido ao meio não foi diferente. O escritor foi membro do Partido Comunista por muito tempo, e não é por acaso que a metade direita do visconde é má, enquanto a metade esquerda é boa. O autor também descreve cenas muito visuais, por exemplo, ao narrar como o pai de Medardo passara, por vontade própria, a habitar um viveiro junto com seus pássaros. Essa passagem, em especial, poderia facilmente estar em Cem anos de solidão.

Não dá pra negar que Italo Calvino foi um incrível contador de histórias, porém O visconde partido ao meio não é o melhor de sua famosa trilogia. A maldade de Medardo faz rir pelo exagero, mas o livro não é tão engraçado quanto O cavaleiro inexistente. Além disso, fica a impressão de que algumas situações e personagens interessantes poderiam ter se desenvolvido melhor, como os huguenotes e a vila dos leprosos conhecida como “Prado do Cogumelo”. O desfecho também parece simples demais.

Mas, no fim das contas, a leitura vale a pena. Os livros da trilogia Os nossos antepassados estão disponíveis tanto num volume único, quanto em edições individuais. Se mais gente ler esse livrinho, talvez o extremismo e a intolerância diminuam, e o diálogo se torne mais fácil entre aqueles que discordam entre si.


Capa-O-visconde-partido-ao-meio.jpg

Avaliação: 3.5 de 5.

O VISCONDE PARTIDO AO MEIO
Autor: Italo Calvino
Tradução: Nilson Moulin
Editora: Companhia de Bolso
Páginas: 104
Onde comprar: Amazon


Postado por Lucas Furlan

É formado em Comunicação Social e trabalha com criação de conteúdo para a internet. Toca guitarra e adora música e cinema, mas, antes de tudo, é um leitor apaixonado por livros.

4 comentários em “Resenha | O visconde partido ao meio, de Italo Calvino

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