Resenha | A estrada, de Cormac McCarthy

Livro A estradaA estrada
Autor: Cormac McCarthy
Tradução: Adriana Lisboa
Editora: Alfaguara
Páginas: 234
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Decidi fazer uma resenha especial para o Dia dos Pais, e o primeiro livro que me veio à cabeça foi A estrada, do norte-americano Cormac McCarthy (autor de Onde os velhos não têm vez). Não me lembro de nenhum outro que tenha sido tão emocionante ao descrever os laços entre pai e filho. McCarthy, inclusive, dedicou a obra ao seu filho, John.

A história se passa num mundo pós-apocalíptico, num futuro não muito distante. As informações sobre o que aconteceu são escassas: houve clarões e tremores, o céu ficou coberto de fuligem, as águas se tornaram estéreis e muitas pessoas e animais morreram. Com o passar do tempo, alguns sobreviventes tiveram que escolher entre a sobrevivência e a civilização. Muitos deles preferiram a primeira; por isso se organizaram em gangues e se tornaram canibais.

O Pai e o Menino

É nesse contexto sombrio que vivem os dois personagens principais de A estrada. Eles não possuem nomes: são identificados apenas como o Pai e o Menino. Os dois estão seguindo para o Sul, embora não saibam o que vão encontrar por lá, levando seus poucos pertences  num carrinho de supermercado. No caminho, o Pai e o Menino precisam se proteger do frio e encontrar água potável e comida. Um revólver com poucas balas está sempre ao alcance da mão caso precisem se defender dos “homens maus”.

Desde as primeiras linhas, quando o Pai acorda de madrugada para verificar se o filho continuava respirando, percebemos que o único objetivo de sua vida era manter a criança a salvo. Por qualquer preço que fosse cobrado. Por qualquer sacrifício que fosse exigido. Por isso, é particularmente chocante saber que o Menino tinha sido instruído pelo Pai a tirar a própria vida com um tiro caso eles fossem capturados pelos canibais. Chega a ser doloroso imaginar o que o Pai deve ter sentido ao dizer isso para o garoto.

Na sua dura rotina, o Menino, ainda construindo seu caráter, fica dividido com algumas atitudes do Pai. O adulto tinha contado histórias, ficcionais ou não, cheias de heróis caridosos e altruístas, mas, ao encontrar outras pessoas, ele nunca as ajuda. É difícil para o garoto perceber que a quantidade de suprimentos é pequena, e que todo velho, criança ou cachorro que cruza seu caminho pode ser uma isca para uma armadilha.

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O autor Cormac McCarthy

Levando o fogo

O estilo de Cormac McCarthy tem pouca pontuação e os episódios são divididos em blocos curtos. O texto se aproxima da prosa poética em vários momentos e, mesmo nos trechos mais difíceis, as frases são sempre belas.  Muitas das ações dos personagens são descritas em detalhes e sequencialmente, pra deixar claro que, por mais insignificantes que pareçam, são fundamentais para a sobrevivência deles.

É curioso notar que o Pai tem várias habilidades (sabe atirar, realiza trabalhos manuais, entende de medicina), mas não fica claro se ele já as possuía antes do “apocalipse” ou se as desenvolveu de acordo com a necessidade.

Também é interessante perceber como o momento mais importante para eles é sempre aquele que está sendo vivido:

Nenhuma lista de coisas para fazer. O dia providencial a si mesmo. A hora. Não existe o mais tarde. Agora é mais tarde.

Perto do final do livro, o Menino pergunta qual foi a coisa mais corajosa que o Pai já fez. A resposta é simples:

Levantar hoje de manhã.

Pra manter a esperança do garoto, quando o mais fácil e óbvio seria desistir, o Pai lhe diz que eles estão “levando o fogo”. O fogo é a bondade, o resto de humanidade que possuem e o amor que sentem um pelo outro. Afinal, “cada um [era] o mundo inteiro do outro”.

A adaptação cinematográfica

A estrada foi adaptado para o cinema em 2010, com direção de John Hillcoat. O Pai foi interpretado por Viggo Mortensen, e o Menino por Kodi Smit-McPhee (o novo Noturno dos X-Men). Outros atores de peso fizeram pequenas participações no longa, como Charlize Theron, Guy Pearce e o veterano Robert Duvall. O filme não é ruim, mas perde fácil para o livro.

O Valeu, Gutenberg! recomenda profundamente A estrada. Porque Cormac McCarthy é um dos maiores autores norte-americanos contemporâneos. Porque o livro venceu o Prêmio Pulitzer de 2007. Porque, sem ser piegas, a obra transmite a importância da esperança. E porque, ao terminá-lo, você vai querer abraçar seu pai e/ou seus filhos.

John Francis McCarthy deve se sentir orgulhoso do lindo livro que seu pai escreveu pensando nele.

PS: a cena da Coca-Cola tem no livro também – e é muito bonita, por sinal…

AVALIAÇÃO

5-estrelas-2

Imagens extraídas da internet.

5 comentários em “Resenha | A estrada, de Cormac McCarthy

  1. Legal, Lucas!
    A temática me lembrou um pouco do filme “Ladrões de Bicicleta”, principalmente quando você cita a complexidade na construção do caráter do pai. Você já tinha comentado sobre o livro, fiquei mais curiosa ainda. O blog está fantástico, parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

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