Resenha | Tropas estelares, de Robert Heinlein

Tropas estelares
Autor: Robert Heinlein
Tradução: Carlos Angelo
Editora: Aleph
Páginas: 368
Onde comprar: Amazon (disponível também no Kindle Unlimited)

Antes de começar a ler Tropas estelares, eu já sabia que o livro era um dos maiores clássicos da ficção científica e que tinha rendido o Prêmio Hugo de 1960 ao seu autor, o norte-americano Robert Heinlein. Eu sabia também que o livro se passa no futuro e que narra uma guerra entre a raça humana e aracnídeos alienígenas.

Por conta desse conflito (e tendo a adaptação cinematográfica de 1997 na cabeça), eu pensava que o livro seria uma grande aventura espacial. Mas não é bem assim.

Tropas estelares começa a mil por hora, com o narrador e protagonista Juan “Johnnie” Rico no meio de uma missão das Forças Militares da Federação Terrana, o exército da Terra.

Nessa missão, nós conhecemos o poderoso armamento dos soldados humanos e também as fantásticas armaduras robóticas usadas por eles. Hoje em dia essas armaduras são comuns em livros e filmes de ficção científica, mas elas surgiram primeiro na imaginação de Heinlein.

Porém, após o primeiro capítulo movimentado, as coisas ficam mais lentas. A narrativa volta no tempo e passa a descrever a ascensão de Rico na carreira militar, desde o momento em que ele se alista na Infantaria Móvel (sem saber que uma guerra era iminente), passando pelo treinamento (que exige muito sacrifício dos recrutas e causa diversas desistências e mortes — e ocupa metade do livro) até o auge do conflito com os insetos inimigos. Apesar da evolução do protagonista, parece que a história não deslancha…

Johnnie Rico é o personagem mais interessante, com suas dúvidas e inseguranças mas sempre movido pelo senso de dever. O mesmo não pode ser dito dos coadjuvantes, que entram e saem de cena sem deixar saudades.

Mais do que narrar o conflito com uma raça alienígena, Robert Heinlein preferiu descrever os bastidores do exército durante uma guerra. Por isso, existem várias conversas sobre escolha de estratégias, armas, promoções, etc.

Além disso, o autor também escreveu longos trechos explicando o funcionamento, filosófico e político, da sociedade do futuro imaginada por ele. Ao priorizar a política em detrimento da aventura, Heinlein conseguiu que Tropas estelares não fosse visto na época de sua publicação como um livro escapista, sendo aceito por leitores mais “sérios”.

Daí você me diz: “Ah, então tudo bem. Esse lado teórico da obra compensa a falta de ação.” É, mas um novo problema surge: muitas das teorias e frases ditas por personagens de Tropas estelares podem ser consideradas fascistas.

O motivo da guerra com os aracnídeos nunca fica claro, mas é dito que os alienígenas são uma raça inferior, que atrapalha a expansão dos humanos pelo espaço. Também há uma defesa da violência como ferramenta do progresso e do castigo físico como forma de punir e ensinar.

Sem falar da glorificação das armas e do exército: na sociedade de Tropas estelares, apenas quem cumpriu o serviço militar tem direito ao voto. Como Robert Heinlein foi militar e era bastante conservador, há quem defenda que ele colocou nas frases de seus personagens ideias nas quais ele próprio acreditava.

O escritor Robert Heinlein (1907-1988). (Reprodução)

A discussão sobre se Tropas estelares é fascista ou não vem desde o lançamento do livro, em 1957, e divide leitores desde então. Pra defender Heinlein, dá pra dizer que, no livro, ele não defende a supremacia do povo de nenhuma nação (Johnnie Rico é filipino e cresceu na Argentina). E talvez ele não fosse tão conservador já que publicou, quatro anos depois, Um estranho numa terra estranha, que se tornou praticamente um manifesto da contracultura hippie.

Entretanto, não me parece que Heinlein tenha escrito Tropas estelares como uma crítica  social mordaz, ao contrário do que, por exemplo, Aldous Huxley fez em Admirável mundo novo. Nenhum personagem do livro critica ou condena a sociedade onde vive.

As características próximas do fascismo de Tropas estelares foram escancaradas na já citada adaptação cinematográfica de 1997, dirigida por Paul Verhoeven. Com alusões ao nazismo e muito sarcasmo, o diretor holandês fez um filme-B “ruim de propósito”, cuja ironia muita gente não entendeu até hoje.

Eu estava muito curioso pra ler Tropas estelares, mas a obra acabou me decepcionando um pouco… Por não ser bem o que eu imaginava e pela mensagem que ela passa.

Mas essa é só a minha opinião. O livro tem armaduras robóticas incríveis, naves espaciais e é um clássico admirado por muitos leitores e escritores. E a leitura de todo clássico pode ser válida, nem que seja pela sua influência e importância histórica.

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AVALIAÇÃO

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 Fotos: Lucas Furlan.

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