‘O coração delator’ é uma aula de como criar um narrador louco

Publicado em 1843, The tell-tale heart (O coração delator, ou O coração revelador, dependendo da tradução) é um dos contos mais famosos de Edgar Allan Poe. Seu narrador é um homem que tenta provar sua sanidade descrevendo, paradoxalmente, um crime terrível que cometeu. Neste post vou descrever alguns detalhes do enredo; se você não quiser receber spoilers, leia o conto primeiro e volte pra cá depois.

Logo nas primeiras frases, o narrador — que não tem nome — se defende da acusação de ser louco. Ele está conversando, provavelmente, com um oficial da lei ou com um médico. Ele reconhece, porém, que está doente e afirma que a enfermidade aguçou sua audição.

Pra demonstrar que tem a mente sã, o narrador explica a esse interlocutor como planejou e executou o assassinato de um velho com quem morava — não fica claro qual era a relação entre os dois. Segundo ele, uma pessoa insana seria incapaz de executar aquela ação com tanto método e prudência.

Se o crime em si não bastasse para provar a loucura do narrador, Edgar Allan Poe enche o texto de detalhes que não deixam dúvidas sobre o estado mental do personagem. Embora afirme o contrário, o assassino, ao descrever suas atitudes, se apresenta como um autêntico psicopata.

A começar pelo motivo do crime: o narrador se sentia incomodado pela pupila cinzenta de um dos olhos do velho, provavelmente resultado de uma catarata. Diz ele:

“Um de seus olhos parecia o de um abutre (…). Toda vez que ele o fixava em mim, eu sentia gelar-me o sangue.” (Tradução de José Paulo Paes)

Além disso, ele planeja o homicídio com extrema frieza, apresentando um comportamento obsessivo e dissimulado. O narrador abre a porta do quarto do velho todas as noites, durante uma semana, sempre no mesmo horário, pra observar se sua vítima está acordada e com os olhos abertos. Essa rotina leva horas e é executada com extremo cuidado para não despertar o velho. Pela manhã, o assassino trata sua futura vítima com amabilidade.

Finalmente, na oitava noite, o velho está acordado e percebe que há alguém em seu quarto. Assustado, ele grita de pavor e o narrador relaciona esse som com o grito que ele próprio deu várias vezes, “revelando com seu eco assustador os terrores que me atormentavam” — mais um sinal claro de seus problemas psicológicos.

Em seu relato, o narrador conta com naturalidade que escutou o coração do velho batendo com força e, temendo que o som fosse ouvido pelos vizinhos, decidiu que chegara a hora. Ele mata o homem com frieza, esquarteja o corpo, esconde os restos mortais sob as tábuas do chão e limpa a cena do crime.

Instantes depois, três policiais batem à porta da casa, querendo saber qual foi a causa do grito que os vizinhos ouviram. O assassino diz que ele mesmo gritou devido a um pesadelo, e justifica a ausência do velho mentindo que ele está fora da cidade. Pra comprovar mais uma vez sua psicopatia, o narrador leva os policiais para o quarto da sua vítima. Lá eles conversam tranquilamente: parece que o assassino cometeu o crime perfeito.

Mas um sintoma da sua loucura retorna: o assassino volta a escutar os batimentos cardíacos do velho, cada vez mais alto. Os policiais, evidentemente, não ouvem nada, o que o deixa ainda mais nervoso. Descontrolado, ele acaba por confessar o crime, indicando onde escondeu o corpo da vítima.

O escritor americano Edgar Allan Poe (1809-1849).

Embora esteja longe de ser um conto engraçado, O coração delator tem um certo humor sombrio. O narrador conta sua história pra provar que não é louco, mas à medida que o relato avança, não restam dúvidas de que ele é completamente maluco. Essa é a grande sacada de Edgar Allan Poe.

Outros escritores poderiam fazer com que o narrador tentasse esconder sua insanidade, cabendo ao interlocutor revelá-la. Haveria ainda a possibilidade de tornar o desfecho ambíguo, sem que o leitor tivesse certeza se os batimentos cardíacos do velho morto eram reais ou não — o que pode parecer interessante, mas nesse caso seria um caminho mais fácil.

Poe decreta desde o início que o personagem é insano, mas o constrói de maneira que ele não perceba a própria loucura. O narrador se incrimina sem perceber — uma pessoa louca não se enxerga como louca.

É por isso que O coração delator é uma aula de como criar um narrador com gravíssimos distúrbios psicológicos.

Imagem de capa do post: Ilustração de Harry Clarke para “The tell-tale heart” via Wikimedia Commons.


Postado por Lucas Furlan

É formado em Comunicação Social e trabalha com criação de conteúdo para a internet. Toca guitarra e adora música e cinema, mas, antes de tudo, é um leitor apaixonado por livros.

Um comentário em “‘O coração delator’ é uma aula de como criar um narrador louco

Deixe seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s