Resenha | Um estudo em vermelho, de Arthur Conan Doyle

Um estudo em vermelho
Autor: Arthur Conan Doyle
Tradução: Maria Luiza X. de A. Borges
Editora: Zahar
Páginas: 232
Compre pela Amazon: amzn.to/2fMqI0O

Ninguém discorda que Sherlock Holmes é o detetive mais famoso do mundo. Sua habilidade para solucionar crimes, seu comportamento excêntrico e sua amizade com o Doutor Watson são conhecidos até por quem nunca leu uma única história dele (ou não assistiu aos seus filmes e séries). Isso torna ainda mais interessante a leitura de Um estudo em vermelho. O livro (publicado em 1887, mas situado em 1881) foi o primeiro protagonizado por Holmes, que, embora já atuasse como consultor da Scotland Yard, era um total desconhecido da população londrina.

Muito prazer, Sherlock Holmes

Também é em Um estudo em vermelho que Watson (o narrador das histórias de Holmes) conhece o detetive e passa a dividir com ele um apartamento no hoje célebre endereço de Baker Street 221B. Dessa forma, o leitor vai conhecendo Sherlock Holmes ao mesmo tempo que o Doutor Watson. Várias características do investigador já estão presentes no livro: a inteligência incomparável, o poder de observação quase sobrenatural, a arrogância, o apreço pelo violino, o uso de drogas e o desprezo pela polícia inglesa.

Apesar de achar que os homens da Scotland Yard são um bando de incompetentes (ou talvez por isso), Sherlock Holmes atua como um “detetive consultor”, auxiliando nas investigações quando um caso fica complicado demais para a polícia.

No livro, Watson narra a investigação do primeiro caso que ele acompanhou ao lado de Holmes: o assassinato do norte-americano Enoch J. Drebber. O cadáver foi encontrado numa casa vazia e, embora não houvesse nenhum ferimento em seu corpo, havia sangue pelo chão. Usando esse mesmo sangue, o assassino escreveu a palavra “rache” numa das paredes.

Detalhe da edição da Zahar.

Ruptura na narrativa

Um estudo em vermelho tem muito suspense, pistas falsas, reviravoltas… Mas, na metade do livro, Sherlock Holmes já consegue identificar e capturar o criminoso. Tem inicio então uma sequência de cinco capítulos, que se passam entre 40 e 20 anos antes, e descrevem os fatos que levaram ao crime. Só depois ficamos sabendo como o assassinato ocorreu e como Holmes chegou às suas conclusões.

A “história dentro da história” que é narrada no meio do livro é interessante e chega a ter mais ação do que todo o resto do romance, mas essa ruptura narrativa é um pouco brusca e talvez incomode alguns leitores. Também fica claro nesses capítulos o preconceito com que Conan Doyle descreve um certo grupo religioso (não vou falar pra não dar spoiler), porém a perspectiva dele não devia ser muito diferente da visão da sociedade inglesa da época.

O escritor Arthur Conan Doyle (1859-1930).

Edição definitiva, com ilustrações e (muitas) notas

Essa edição que eu tenho é a “Comentada e ilustrada” da Zahar e faz parte da impecável coleção “Clássicos Zahar”. As ilustrações são originais das primeiras edições e o livro tem muitas, mas muitas notas. Eu recomendo que o leitor não interrompa a leitura para conferir cada nota que aparece; o melhor é lê-las ao final de cada capítulo, onde elas estão posicionadas.

A leitura delas não é obrigatória para entender a obra, mas as notas são um ótimo complemento. Além de trazerem informações históricas, através delas é possível perceber a abordagem dos estudiosos sobre o “cânone sherlockiano”. Falando nesses termos parece impossível, mas essas abordagens são muito divertidas!

As histórias de Sherlock Holmes deram origens a mais teorias do que as séries Lost e Game of thrones juntas. Quer um exemplo? Watson foi ferido na Guerra do Afeganistão; numa história é dito que ele foi atingido no ombro, em outra, que foi na perna. O que poderia ser apenas um erro de continuidade por parte de Conan Doyle, é tratado por um estudioso como uma prova clara que o verdadeiro Watson morreu na guerra, tendo sua identidade roubada por um criado (que sempre se confundia ao contar a história).

Detalhe de algumas das ilustrações do livro.

É curioso ver também como vários fãs tratam Sherlock Holmes e Watson como figuras reais. O médico não seria um simples narrador, mas a pessoa que verdadeiramente escreveu as histórias baseado em suas memórias, tendo repassado-as para Arthur Conan Doyle publicá-las (o autor seria apenas um organizador e agente literário). No universo sherlokiano, a fama do detetive cresce à medida que Watson divulga suas aventuras, num grande jogo de metalinguagem:

“É maravilhoso!” exclamei. “Seus méritos deveriam ser publicamente reconhecidos. Deveria publicar um relato do caso. Se não o fizer, eu o farei para você.”

“Pode fazer o que quiser, doutor”, respondeu ele.

Teorias à parte, a escrita de Conan Doyle é muito clara e acessível e a leitura do livro é bem rápida.

Se não bastassem suas qualidades, Um estudo em vermelho deve ser lido por seu valor histórico. Foi nele que surgiu um dos personagens mais populares da cultura ocidental, que diverte e intriga leitores há 130 anos. Ninguém é tão relevante há tanto tempo por acaso.

AVALIAÇÃO

5-estrelas-2

Fotos: Lucas Furlan, exceto imagem Arthur Conan Doyle (extraída da internet).

6 comentários em “Resenha | Um estudo em vermelho, de Arthur Conan Doyle

  1. Oi Lu! Eu amo Sherlok, mas apenas pelos filmes/séries. Nunca li nada. Acho que a Zahar arrebenta nas edições. Não parece ser um livro muito longo, vou deixar anotadinho aqui para tentar ler em breve. Acredito que será um bom começo com ele.
    Um beijo
    Resenhando por Marina

    Curtido por 1 pessoa

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