Resenha | ‘Invasores de Corpos’: um clássico da ficção científica que segue relevante

Imagine que você mora numa cidadezinha onde todos se conhecem. Você leva uma vida tranquila, até que um dia percebe que tem algo de errado acontecendo. As pessoas com as quais você convive desde a infância parecem ter sido transformadas em outra coisa, embora continuem iguais fisicamente.

Você começa a investigar e descobre que a explicação para o que ocorreu é inacreditável e perigosa. À medida que se aprofunda na investigação, você passa a ser perseguido por seus parentes, amigos e vizinhos. Não dá pra confiar em ninguém. Essa é a situação do Dr. Miles Bennell, narrador e protagonista de Invasores de Corpos.

Escrito pelo americano Jack Finney e publicado em 1955, o livro logo se tornou cultuado, sendo adaptado quatro vezes para o cinema. É, sem dúvida, um clássico da ficção científica.

Porém, é preciso dizer que Invasores de Corpos não é uma obra-prima. Os personagens são rasos e algumas soluções, inclusive no clímax, são um pouco preguiçosas. O estilo de Finney passa longe de ser, digamos, vistoso.

Um exemplo: bem no começo do livro, o Dr. Bennell se apresenta para o leitor e passa sua ficha completa: idade, cor dos olhos e do cabelo, hobbies e até peso e altura — descrições desnecessárias que mereceriam um puxão de orelha de professores de escrita criativa.

À esquerda, o escritor americano Jack Finney (1911-1995); à direita, Dana Wynter e Kevin McCarthy em cena de ‘Vampiros de Almas’. (Reprodução)

Mas por quê, então, seu romance é tão relevante até hoje?

Primeiro, porque Jack Finney sabia escrever passagens cheias de tensão e suspense, sendo muito difícil interromper a leitura. Segundo, porque a premissa criada por ele é brilhante e reverbera de maneira diferente, e sempre atualizada, com o passar dos anos.

É por isso que o livro teve tantas adaptações cinematográficas em épocas distintas. No primeiro filme, Vampiros de Almas (dirigido por Don Siegel e lançado em 1956), os tais invasores de corpos foram vistos como uma alegoria das perseguições promovidas pelo senador Joseph McCarthy em sua cruzada anticomunismo. O crítico de cinema Roger Ebert apontou que a terceira adaptação, Os Invasores de Corpos — A Invasão Continua (de 1993, com direção de Abel Ferrara), seria sobre o medo da Aids.

(Os outros filmes são o ótimo Invasores de Corpos, dirigido por Philip Kaufman e lançado em 1978, e o fraco Invasores, de 2007, com direção de Oliver Hirschbiegel.)

Se lançada hoje, uma nova versão poderia debater o extremismo político que se espalhou pelo mundo. Vai dizer que você nunca estranhou o comportamento agressivo, frio e persecutório que aquele amigo ou familiar passou a exibir nas redes sociais de uns tempos pra cá?

Invasores de Corpos vai continuar sendo lido e adaptado por muito tempo, pelo menos enquanto existirem grupos que tentam impor sua vontade através do medo, da força e da intimidação.


INVASORES DE CORPOS
Autor:
Jack Finney
Tradução: Camila Fernandes
Editora: DarkSide Books
Páginas: 224
Onde comprar: Amazon | DarkSide Books

Livro recebido através da parceria com a DarkSide Books.


Postado por Lucas Furlan

É formado em Comunicação Social e trabalha com criação de conteúdo para a internet. Toca guitarra e adora música e cinema, mas, antes de tudo, é um leitor apaixonado por livros.

2 comentários em “Resenha | ‘Invasores de Corpos’: um clássico da ficção científica que segue relevante

  1. Prezado Lucas, Ótima resenha e excelente análise, tanto do livro, quanto das adaptações cinematográficas e, principalmente,  ótimo paralelo com nossa realidade atual! Gostei muito! Parabéns e obrigada!Abraço, com desejo de sucesso para todos da equipe,Laura.Enviado do meu Galaxy

    Curtido por 1 pessoa

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