Resenha | Lembranças de Lennon, de Jann S. Wenner

Lembranças de Lennon
Autor: Jann S. Wenner
Tradução: Márcio Grillo
Editora: Conrad
Páginas: 160

Em dezembro de 1970, John Lennon, acompanhado da esposa, Yoko Ono, se encontrou com o jornalista Jann S. Wenner para registrar aquela que se tornaria uma das entrevistas mais famosas da história. Ao ser publicada no ano seguinte na revista Rolling Stone (da qual Wenner foi um dos criadores), a conversa surpreendeu e, em muitos momentos, até chocou os fãs do Beatles. Este livro, Lembranças de Lennon, traz a polêmica e longa entrevista na íntegra – e é absolutamente fundamental.

Um momento de ruptura

Na época, John Lennon estava passando por um momento de ruptura. Os Beatles tinham chegado ao fim no ano anterior, após muitos desgastes. Paul McCartney e Lennon divergiam sobre o gerenciamento dos negócios do grupo, e Paul e George Harrison não faziam a mínima questão de disfarçar que não iam com a cara da Yoko.

Sem a pressão de fazer parte da banda mais famosa do planeta, Lennon estava entusiasmado com as performances artísticas e políticas que fazia ao lado da esposa. Completamente apaixonado, ele – que já era um rebelde por natureza – também estava revoltado com o tratamento que Yoko recebia da imprensa, de seus fãs e de seus antigos colegas.

Pra completar, John estava fazendo sessões de Terapia do Grito Primal com o psicólogo Arthur Janov. Criada pelo próprio terapeuta, a técnica consistia num processo de autoconhecimento, no qual o paciente colocava seus traumas e dores pra fora, literalmente, na base do grito.

A entrevista com Wenner tinha como propósito divulgar o álbum Plastic Ono Band, seu primeiro disco solo (ele já tinha gravado três em parceria com Yoko). Quem já ouviu esse disco (e quem ainda não ouviu precisa ouvir AGORA) sabe que Lennon estava buscando a honestidade acima de tudo. Poucos artistas se expuseram com tanta coragem, num disco e numa entrevista, como ele.

Manuscrito da letra da música “Working class hero”, uma das mais autobiográficas do álbum “Plastic Ono Band”, que é reproduzida no livro “Lembranças de Lennon”.

Lennon sem papas na língua

Se em Plastic Ono Band John canta coisas como “Mãe, você me teve, mas eu nunca tive você/Eu precisava de você, mas você nunca precisou de mim” (em Mother) ou “Eu não acredito nos Beatles/Eu só acredito em mim” (na música God), na entrevista ele fala sobre drogas, sobre brigas com os outros Beatles, sobre músicas que ele próprio compôs e não gosta…

Lennon também se mostra ressentido com Paul e despreza as primeiras gravações solo do antigo colega; ele detona figuras como o guru Maharishi Mahesh Yogi (de quem os Beatles foram seguidores em meados da década de 1960); ironiza a dança do Mick Jagger; e por aí vai…

Ele também dá alguns vacilos, como quando tenta diminuir a importância do produtor George Martin (que trabalhou em todos os álbuns dos Beatles, com exceção de Let it be), quando diz que o disco Abbey Road é fraco (!), ou quando fala que a Yoko entende tanto de rock quanto os Beatles ou os Stones…

Eu também não levo muita fé quando ele parece se confundir com a ordem de gravação dos discos da banda. Acho que ele estava apenas querendo passar a impressão de que não estava nem aí para seu antigo grupo. Inclusive, alguns anos depois, ele mudou de opinião sobre várias coisas que disse e até se reaproximou de seus velhos companheiros.

Mas Lembranças de Lennon não é apenas rancor e ressentimento. John comenta várias passagens da história dos Beatles, conta como diversas canções foram compostas, fala de suas ações pela paz, e até revela que se achava um gênio. Pode parecer arrogância mas, se John Lennon não é um gênio, quem é?

E mesmo nas passagens mais agressivas ou cascudas, John é tão irônico e sarcástico que é impossível não rir com ele.

O jornalista Jann S. Wenner.

Edição esgotada

Essa edição foi lançada no ano 2000, quando a conversa com Jann S. Wenner completou 30 anos, e atualmente o livro está esgotado – mas é possível encontrar exemplares usados em sebos e no marketplace da Amazon. Essa edição tem textos introdutórios de Yoko Ono e Wenner e conta com muitas notas explicativas.

Apesar de ser uma leitura dolorosa em alguns momentos, Lembranças de Lennon é fundamental para os fãs dos Beatles, e de John, em especial. Entrevistas como essa são impensáveis nos dias de hoje, quando qualquer artista iniciante vive cercado de assessores de imprensa.

Ao final do livro, fica uma certeza: John Lennon, que foi assassinado em 1980, aos 40 anos, faz muita falta. Sua última resposta na entrevista – que é reproduzida na contracapa do livro – nos faz pensar no que ele ainda teria feito se tivesse vivido mais tempo…

Contracapa de “Lembranças de Lennon”.

AVALIAÇÃO

5-estrelas-2

Fotos: Lucas Furlan, exceto pelo retrato de Jann S. Wenner (Getty Images)

3 comentários em “Resenha | Lembranças de Lennon, de Jann S. Wenner

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