Resenha | Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

Fahrenheit 451
Autor: Ray Bradbury
Tradução: Cid Knipel
Editora: Biblioteca Azul
Páginas: 216
Compre pela Amazon: amzn.to/2Axt9dX

A sinopse de Fahrenheit 451 é bem conhecida: num futuro próximo os livros são proibidos, cabendo aos bombeiros localizar e incinerar os poucos exemplares ainda existentes. Um desses bombeiros, Guy Montag, entra em crise e passa a questionar sua profissão e a sociedade onde vive.

Como Fahrenheit 451 foi escrito por Ray Bradbury, o leitor já espera, antes da primeira página, que o volume tenha uma aguda crítica social. O que surpreende é a forma como o livro continua atual até hoje, mesmo tendo sido publicado originalmente em 1953.

Guy Montag, um bombeiro que destrói livros

Nos Estados Unidos de Fahrenheit 451, a população vive totalmente alienada. O consumo de calmantes é alto e as pessoas têm apenas duas diversões: dirigir em altíssima velocidade ou assistir programas interativos e em terceira dimensão, em televisores cujas telas ocupam paredes inteiras.

Guy Montag, o protagonista, sempre foi um bombeiro e cidadão exemplar, mas três situações mexem com sua cabeça: primeiro, ele conhece sua nova vizinha, a jovem Clarisse McClellan. Ela tem um comportamento diferente das outras pessoas, gosta de ficar ao livre, de conversar e de fazer perguntas.

Depois, Montag começa a se dar conta de como sua esposa, Mildred, vive anestesiada, e como o casamento deles é frio. Eles nem se lembram como se conheceram.

Por fim, o bombeiro testemunha o suicídio de uma senhora, que ateia fogo ao próprio corpo enquanto sua casa, repleta de livros, é incendiada por ele e seus colegas.

Montag acredita que a alienação das pessoas tem a ver com a destruição dos livros, e fica curioso para descobrir o que esses objetos proibidos têm de tão especial. Mas seu interesse pelos livros faz com que ele se torne um criminoso perante a lei.

Amor aos livros e crítica à televisão

Os bombeiros já tinham sido mencionados na história Usher II, presente no primeiro livro de Ray Bradbury, o genial As crônicas marcianas, de 1950. No conto, porém, os únicos livros proibidos eram os de fantasia, ficção científica, etc. – obras de temática realista eram liberadas.

Em Fahrenheit 451, não é permitido nenhum livro. Nada de literatura, filosofia, história… Até a Bíblia é proibida. Bradbury faz com que seus personagens não tenham acesso a nenhuma obra que leve à reflexão, ao mesmo tempo em que são bombardeados com as ultrarrealistas imagens das telas gigantes.

Com isso, o escritor, de uma só vez, reafirma seu amor pelos livros e critica a indústria cultural, especialmente a televisão.

Como dito anteriormente, Fahrenheit 451 segue muito atual – e por várias razões. No livro, as pessoas quase não conversam, e preferem interagir com as “famílias” virtuais das telas gigantes. Imagine o que Ray Bradbury teria a dizer sobre a profusão de smartphones, redes sociais e fones de ouvido neste século XXI.

Além disso, é assustador constatar que a proibição dos livros – apesar de ter sido institucionalizada por um governo totalitário – partiu da própria sociedade, cansada da angústia que a reflexão profunda poderia causar. A história de Guy Montag poderia se passar no Brasil de hoje em dia, onde “pessoas de bem” se articulam violentamente para fechar exposições, proibir peças e palestras, e apoiar leis que fazem o país regredir ao começo do século passado. Tudo em prol dos bons costumes.

Nesse sentido, mesmo que normalmente Fahrenheit 451 seja classificado como ficção científica e distopia (o perigoso Sabujo Mecânico, que é uma mistura de cachorro, robô e aranha é bizarro e incrível), temos que concordar que o livro é bem realista.

O escritor norte-americano Ray Bradbury (1920-2012).

Nova adaptação da HBO

Essa edição da Biblioteca Azul ficou excelente. A capa é linda e, além do romance, o volume conta com três extras: um prefácio de Manuel da Costa Pinto (que tem um spoiler no último parágrafo e, por isso, deve ser lido por último) e dois textos nada politicamente corretos de Ray Bradbury, nos quais ele conta quais foram as inspirações para o livro (uma delas foi a pressão de determinados grupos sociais e de editores pra que ele alterasse e/ou simplificasse As crônicas marcianas).

Pra quem não sabe, Fahrenheit 451 foi adaptado para os cinemas pelo diretor François Truffaut em 1966 e se tornou um filme cultuado, estrelado por Oskar Werner e Julie Christie. A HBO está produzindo uma nova adaptação do livro, que será lançada no ano que vem.

Michael Shannon (como o Capitão Beatty) e Michael B. Jordan (no papel de Guy Montag), na nova adaptação de “Fahrenheit 451” da HBO.

Você já leu Fahrenheit 451 ou alguma outra obra de Ray Bradbury? Conte pra gente nos comentários. Ah, e não se esqueça de cadastrar seu e-mail para receber em primeira mão as novas postagens do blog!

AVALIAÇÃO

5-estrelas-2

Fotos: Lucas Furlan, exceto imagem da nova adaptação da HBO (divulgação).

5 comentários em “Resenha | Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

  1. Ótima resenha! Certamente vou me inscrever para acompanhar mais resenhas geniais como essa. Aliás, recentemente também escrevi uma análise sobre Fahrenheit 451. Quanto aos textos “nada politicamente corretos” do Ray Bradbury, achei válida a crítica, mesmo defendendo as minorias. Há algum tempo, vi que estava rolando um debate sobre os livros do Monteiro Lobato. Estavam discutindo se suas obras deveriam integrar ou não o currículo das escolas por conter teor racista. Acho que a função do professor é apresentar um livro às crianças e aos adolescentes sob uma perspectiva crítica, e não censurá-lo. De qualquer maneira, achei seu blog o máximo!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Muito obrigado pelo comentário, Mergulhador!

      Concordo com você. É preciso contextualizar as obras, pra que os estudantes formem uma opinião crítica sobre elas. Proibir um livro, jamais.

      Obrigado também pelos elogios! Um abraço.

      Curtido por 1 pessoa

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