Resenha | Revolta da vacina, de André Diniz

1904 foi um ano particularmente conturbado na cidade do Rio de Janeiro. A então capital federal passava por uma política de “modernização” proposta pelo presidente Rodrigues Alves e pelo prefeito Pereira Passos, que incluía a demolição de cortiços e casas velhas no centro da cidade. Isso forçou a população pobre, incapaz de arcar com o alto preço dos imóveis e dos aluguéis, a ocupar os morros ou a se mudar para bairros periféricos. Havia um grande número de desempregados e o Rio ainda enfrentava epidemias de varíola, febre amarela e peste bubônica.

A situação ficou ainda mais tensa quando o sanitarista Oswaldo Cruz conseguiu impor uma campanha de vacinação obrigatória contra a varíola. A campanha era absolutamente necessária, mas boa parte da população não entendia como a vacina funcionava. De quebra, muita gente temia a força bruta dos policiais que acompanhavam os agentes de saúde — quem se recusasse a se vacinar poderia até ser preso.

É nesse contexto explosivo que se passa a surpreendente HQ Revolta da vacina, de André Diniz, que a DarkSide Books acabou de publicar.

O mais comum seria que o autor transformasse seu protagonista, Zelito, num heroico defensor da vacinação. Afinal, no começo da história, sentimos empatia por ele — Zelito é preterido pelo pai e tem um sonho profissional bastante digno: se tornar um reconhecido ilustrador de jornal. Mas, assim que chega ao Rio de Janeiro para perseguir seu sonho, ele se revela um figura intragável. Zelito é mesquinho, egoísta, ingrato, fútil e perigosamente ambicioso. Não demora pra que ele se engaje no movimento antivacina.

André Diniz foi ousado e muito bem sucedido ao escolher esse ponto de vista. Ele consegue transmitir a importância das vacinas, sem deixar de lado a polêmica que envolveu a vacinação compulsória. Seus desenhos em preto e branco, bastante influenciados pelas xilogravuras, transmitem o clima caótico do Rio de Janeiro naquele período. A contextualização também é muito boa, sendo completada pelo posfácio de Luiz Antônio Simas e pelas charges da época que vêm como extras na edição. A aparição de Oswaldo Cruz é excelente.

— Aqui diz que você foi vacinado contra varíola. Confirma isso?
— Confirmo. Afinal, não tive escolha, não é? (…)
— Você queria escolha para quê? Para morrer?

Revolta da vacina tem uma referência à Machado de Assis na relação entre Zelito e a personagem Soledad, que remete a Brás Cubas e Eugênia. Também há espaço para humor, principalmente na constatação de que Zelito talvez não seja um desenhista tão bom quanto imagina.

Devido ao nosso momento, é impossível não procurar paralelos entre os acontecimentos de 1904 e os dias atuais. E eles estão lá, como o uso da saúde da população como arma política e a ignorância em relação à vacina. Esta, porém, já não se justifica mais de um século depois.

Pra encerrar, deixo três conselhos: leia Revolta da vacina, defenda sempre a ciência e, quando chegar o momento da sua faixa etária, vacine-se.


REVOLTA DA VACINA
Autor: André Diniz
Editora: DarkSide Books
Páginas: 176
Onde comprar: Amazon | DarkSide Books

*Livro recebido através da parceria com a DarkSide Books.


Postado por Lucas Furlan

É formado em Comunicação Social e trabalha com criação de conteúdo para a internet. Toca guitarra e adora música e cinema, mas, antes de tudo, é um leitor apaixonado por livros.

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