Resenha | O homem sem doença, de Arnon Grunberg

O homem sem doença pode ser visto como um livro sobre enganos. Afinal, como explicar que um pacato arquiteto suíço de origem indiana seja acusado de espionagem, não uma, mas duas vezes? É isso o que acontece com Samarendra Ambani, o protagonista deste romance do escritor holandês Arnon Grunberg.

Samarendra, ou simplesmente Sam, leva uma vida sem graça. Depois da morte do pai (um inventor frustrado), ele tomou para si responsabilidade de cuidar da mãe e da irmã, que sofre de uma doença degenerativa. Sam está num relacionamento sem paixão com Nina e todos os seus planos para o futuro foram sugeridos, de alguma forma, por outras pessoas. Sua saúde é de ferro e ele nunca fica doente.

“Neutro resume bem o que ele é, quem ele quer ser e o que sempre foi. Neutro e adequado, duas palavras que tocam o cerne de sua existência.”

A única coisa que empolga Samarendra é a arquitetura, e ele acredita que sua profissão é capaz de levar beleza e harmonia para o mundo. Por isso, ele fica muito entusiasmado ao ser selecionado para participar de um concurso para a construção de uma casa de ópera em Bagdá. Lá, porém, nada sai como ele imaginava: o arquiteto é tomado por espião e acaba sendo preso e torturado.

Esse incidente é o ponto de virada do livro e tem desdobramentos cruciais na vida e no destino de Sam, mesmo depois que ele é libertado e retorna para a Suíça. Sem dar spoilers, posso dizer que as acusações contra ele não se encerram ali.

O escritor holandês Arnon Grunberg. (Foto: Heike Huslage-Koch/Wikimedia Commons)

Um livro kafkiano

O homem sem doença é recheado de situações absurdas e kafkianas. As acusações sem provas contra o arquiteto, a impossibilidade de defesa, as reações das pessoas ao seu redor… Sam se engana durante toda a história ao acreditar que sua profissão, suas boas maneiras e seu passaporte suíço podem comprovar sua inocência.

O livro tem passagens bizarramente engraçadas e Arnon Grunberg destila ironia. O estilo do autor é muito direto e faz com que a leitura seja rápida e fluída.

Grunberg ainda reserva para o final do livro a revelação de um último engano — talvez o mais importante de todos. Ele deixa margem para muitas dúvidas, cabendo ao leitor tirar suas próprias conclusões, o que só reafirma a engenhosidade do romance.


O HOMEM SEM DOENÇA
Autor:
Arnon Grunberg
Tradução: Mariângela Guimarães
Editora: Rádio Londres
Páginas: 256
Onde comprar: Amazon


Postado por Lucas Furlan

É formado em Comunicação Social e trabalha com criação de conteúdo para a internet. Toca guitarra e adora música e cinema, mas, antes de tudo, é um leitor apaixonado por livros.

2 comentários em “Resenha | O homem sem doença, de Arnon Grunberg

  1. Nossa não conhecia esse livro, mas achei a premissa bastante boa. Gosto dessas histórias que possuem esse “Q” de absurdo e que podem ser comparadas com as histórias de Kafka.
    Ótima dica! *-*

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Ary! Se você gosta dos livros do Kafka, vai gostar desse também! Apesar de “O homem sem doença” ter bem mais humor, a influência do Kafka é bem clara.

      Valeu pela visita e pelo comentário!

      Curtido por 1 pessoa

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