Análise | Game of Thrones: The bells (S08E05)

E Game of Thrones bagunçou nossos sentimentos mais uma vez. O episódio The Bells, exibido no último domingo, teve uma reviravolta importantíssima para o desfecho da série: a atitude de Daenerys Targaryen já era esperada por muita gente, mas talvez não naquela proporção. Porém, mesmo com essa reviravolta e com inúmeras cenas grandiosas e de tirar o fôlego, o penúltimo episódio da saga acentuou alguns problemas que são recorrentes há algum tempo na produção da HBO, como um roteiro repleto de soluções fáceis e muita incoerência nas ações dos personagens.

Atenção: esse texto está cheio de spoilers de Game of Thrones

Vamos começar justamente por Daenerys. Montada em Drogon, ela derrubou, praticamente sozinha, as defesas de Porto Real. Destruiu os muros, os navios de Euron Greyjoy e os escorpiões (as armas capazes de matar os dragões). Queimou o exército Lannister, os piratas das Ilhas de Ferro e os mercenários da Companhia Dourada. Jon Snow, Verme Cinzento, Davos, os Imaculados e os Dothraki invadiram a cidade, mas a maior parte do trabalho já estava feita.

Frente à derrota irreversível, Porto Real tocou seus sinos, um ato que simbolizava que a capital de Westeros se rendia à Mãe dos Dragões. Foi então que a loucura da família Targaryen se manifestou definitivamente em Daenerys. Sem piedade, ela atacou a população da cidade, carbonizando mulheres, crianças e quem estivesse no caminho. Os soldados seguiram sua rainha e, para o espanto de Jon Snow, investiram contra homens que já tinham se rendido e estavam desarmados.

Daenerys e Drogon destruíram Porto Real.

A loucura de Daenerys cresceu assustadoramente em pouco tempo na série, mas não dá pra esquecer que ela já vinha sendo mostrada pontualmente desde a primeira temporada. Lembra da indiferença com que ela presenciou o assassinato de Viserys? Ou da crucificação dos Mestres na Baía dos Escravos? Ou ainda da execução do pai e do irmão do Sam? A destruição de Porto Real já tinha aparecido nas visões do Bran e nas da própria Daenerys, quando ela esteve na Casa dos Imortais (nessas cenas parecia haver neve caindo do céu, o que seria uma referência aos White Walkers; agora sabemos que não era neve, eram cinzas).

Foi corajosa a decisão de transformar uma das principais heroínas da série na grande vilã a ser derrotada. Ela mostra o quanto Game of Thrones pode ser surpreendente, e esse “elemento inesperado” sempre foi uma das forças da série da HBO. Pense na execução de Ned Stark, no Casamento Vermelho, na morte violenta de Oberyn Martell, na explosão do Septo de Baelor… Pouquíssimas produções teriam a coragem de inserir reviravoltas tão radicais em suas tramas. É por isso que os problemas no roteiro incomodam tanto.

Tyrion (Peter Dinklage) observa a destruição causada por sua rainha.

Pegue a cena em que Tyrion solta Jaime da prisão. O final da sequência foi um dos pontos altos do episódio: eles reafirmaram sua cumplicidade e se despediram sabendo que dificilmente voltariam a se ver. Mas o início da cena foi constrangedor.

Pra começar, o anão, um dos homens mais cultos de Westeros, se enrola ao tentar falar valiriano com os guardas. Ainda assim, consegue dispensá-los com uma facilidade inacreditável e acaba por libertar o irmão. Os guardas não desconfiaram que ele tentaria fazer isso? Daenerys não deveria ter proibido que os irmãos Lannister se falassem? Pra completar, Jaime diz que não se importa com a população de Porto Real. Mas não foi pra salvar os moradores da cidade que ele matou pelas costas o rei Aerys II, ficando marcado pela desonra e ganhando o infame apelido de “Regicida”?

A forma como Tyrion entregou Varys para Daenerys — assinando assim a sentença de morte do amigo — é “aceitável” se a gente pensar que o anão estava defendendo os interesses de sua rainha, mas é incompatível com as atitudes do personagem ao longo da série.

Cersei (Lena Headey) e Jaime (Nikolaj Coster-Waldau): os gêmeos Lannister morreram juntos.

Muitas cenas não levaram a lugar nenhum… O duelo entre Jaime e Euron é um exemplo: seria melhor que o pirata tivesse morrido logo no ataque do Drogon. A morte do Qyburn também foi insignificante — ficou a impressão que os roteiristas utilizaram a primeira ideia simples e rápida que passou por suas cabeças pra se livrarem do personagem. E a Companhia Dourada? Tinha todo um mistério em torno deles, o Banco de Ferro de Bravos estava envolvido, eles impunham medo e respeito… e todos os mercenários morreram instantaneamente, sem participar da batalha.

Mas, com certeza, o anticlímax foi a participação de Cersei. A presença da rainha maquiavélica que todos amavam odiar não fez a menor diferença no ataque de Daenerys. É lógico que a gente não esperava que ela saísse correndo com uma espada atrás do dragão, mas ela não tinha nenhuma carta na manga para impor alguma dificuldade? A Cersei das outras temporadas certamente teria…

Cersei não contracenou com Daenerys nesse episódio e nem foi morta por Arya, como muita gente esperava. A rainha morreu soterrada ao lado de Jaime, enquanto eles tentavam fugir da Fortaleza Vermelha. Foi aceitável eles morrerem juntos? Sim, mas foi  uma cena simples demais dada a importância dos personagens.

Arya (Maisie Williams) em meio às cinzas e corpos carbonizados.

Pra ser justo, The Bells teve bons momentos: o ataque de Daenerys e Drogon foi épico e  visualmente grandioso; e o aguardado “CleganeBowl” aconteceu, foi brutal e levou o Cão e o Montanha à morte. A despedida de Sandor e Arya rendeu uma boa cena.

Também foi um acerto fazer de Arya a representante dos espectadores dentro da Fortaleza Vermelha. Ela é uma personagem que desperta muita empatia e foi através de seus olhos que pudemos ter uma visão mais detalhada do tamanho da destruição causada pela Mãe dos Dragões.

Talvez os pontos fracos de The bells tenham ganhado mais força quando somados à tristeza que foi ver Daenerys sucumbir à loucura, mas eles não podem ser ignorados. Sigo achando que Game of Thrones é uma das melhores séries já feitas e continuo ansioso pelo último episódio, mas preciso dizer que esperava mais dessa temporada final. Está tudo muito apressado, com pouco capricho.

The bells ficou devendo, apesar de todo o impacto visual.

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