Em novo livro, escritor ficcionaliza suas lembranças de infância com leveza e bom humor
Em 1953, quando tinha 9 anos de idade, Chico Buarque se mudou com a família para a Itália. Seu pai, o historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, assumiria a cadeira de estudos brasileiros da Universidade de Roma. Inspirado pelas recordações dessa temporada italiana, que durou cerca de dois anos, Chico escreveu seu novo livro, “Bambino a Roma”. Mas trata-se de um livro de memórias ou é uma obra de ficção, como está indicado na capa?
Digamos que Chico Buarque ficcionaliza suas lembranças. Isso permite que ele se distancie para narrar as experiências que viveu na capital italiana e construa um ótimo narrador, que não tem necessariamente a mesma voz que ele. Além disso, o recurso possibilita que o autor complete ou apresente algumas situações usando a imaginação. Para o leitor, não faz diferença se os fatos apresentados aconteceram ou não.
Em determinado momento, Chico Buarque — ou melhor, o narrador de “Bambino a Roma” — conta que o papel de parede do seu quarto, que imitava um muro de tijolos, escondia uma parede de tijolos verdadeira. Ele usa essa descoberta para explicar como seu livro foi construído:
“Meu sonhado livro de memórias poderia ser bem isso, um papel de parede reproduzindo o que ele ao mesmo tempo esconde.”
Enfim, “Bambino a Roma” deve ser lido como um livro de ficção — um excelente livro de ficção.

Com um texto ágil, leve e muito engraçado, Chico Buarque consegue transmitir todo o entusiasmo que seu personagem sente a cada nova experiência vivida em Roma: a valsa com a atriz Alida Valli, os passeios de bicicleta, o desabrochar da sexualidade… Alguns acontecimentos não parecem ser completamente verídicos, mas repito: tanto faz se as situações foram vividas, imaginadas ou exageradas pelo escritor.
Através dos olhos de Francisco, o leitor ainda acompanha (à distância, tal qual o garoto) momentos históricos, como o suicídio de Getúlio Vargas e a partida entre Brasil e Hungria pela Copa do Mundo de 1954.
O desfecho de “Bambino a Roma” — sem spoilers — aponta para a volta do fascismo e o crescimento da xenofobia na Europa. Mas até isso é feito com uma dose de humor. E o bom humor é apenas uma das muitas qualidades desse ótimo romance.
BAMBINO A ROMA
Autor: Chico Buarque
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 168
Onde comprar: Amazon
Livro recebido através da parceria com a editora.

