Violência e erotismo de ‘Olhos d’Água’ ainda surpreendem novos leitores

Livro de contos foi meu primeiro contato com a obra de Conceição Evaristo

“Olhos d’Água” foi minha escolha para o #DesafioVG2023 na categoria “livro de um autor (ou autora) que eu nunca li”. Apesar de saber da importância de Conceição Evaristo para a literatura brasileira contemporânea, eu nunca tinha entrado em contato com sua obra. E esse livro curtinho de contos, publicado em 2014, me surpreendeu.

Talvez essa surpresa possa ser creditada à ótima primeira história, justamente a que dá nome ao volume. Nela, Conceição Evaristo apresenta uma narradora que se espanta por não se lembrar da cor dos olhos de sua mãe. Enquanto tenta recuperar essa memória, ela recorda os momentos difíceis que a mãe enfrentou para dar uma vida digna à família.

O conto tem passagens muito dolorosas, mas seu tom é bastante delicado. Evaristo consegue transmitir a gratidão que a filha sente pela mãe.

Pensei que o livro inteiro teria essa mesma atmosfera melancólica e suave. O conto seguinte, porém, me pegou desprevenido.

Em “Ana Davenga”, a personagem-título — uma mulher casada com o criminoso que comanda a comunidade onde eles vivem — precisa lidar com o sumiço do companheiro e com a visita inesperada de seus comparsas. A história me surpreendeu não só pelo plot twist, mas pela carga erótica e pela brutalidade presentes na trama.

A partir daí, sexo e violência passam a marcar presença em vários dos contos do livro.

A maioria das histórias é protagonizada por mulheres — uma delas, “Luamanda”, foca na sexualidade livre e intensa da personagem central. Embora crie principalmente narrativas sobre mulheres pretas e pobres, Conceição Evaristo não perde a força quando coloca homens e crianças periféricos como protagonistas.

Mesmo que muitos de seus personagens — inclusive meninos e meninas — tenham desfechos terríveis, a autora utiliza uma linguagem extremamente poética, na qual a oralidade é acentuada. Isso possibilita extrair beleza de narrativas pesadas e tristes. Evaristo também inventa muitos substantivos compostos, como “corpo-coração”, “gozo-dor” e “tempo-evento”.

E ainda que a maioria dos contos seja violenta, a possibilidade de dias melhores, por meio de luta e coragem, também está presente em “Olhos d’Água”. Ela aparece em contos como “Duzu-Querença” e “Beijo na Face”, mas, principalmente, em “Ayoluwa, a Alegria de nosso Povo”, que encerra o livro.

Nessa última história, narrada como se fosse um mito de origem, a alegria nasce, literalmente, da esperança: “E quando a dor vem encostar-se a nós, enquanto um olho chora, o outro espia o tempo procurando a solução.”


OLHOS D’ÁGUA
Autora:
Conceição Evaristo
Editora: Pallas
Preço: R$ 30 (116 págs.)
Onde comprar: Amazon


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