Livro tem excesso de assuntos e personagens, mas o autor segue afiado
Quando li “VHS – Verdadeiras Histórias de Sangue”, primeiro livro do Cesar Bravo com o qual tive contato, duas coisas me fisgaram. A primeira foi a força da sua escrita. A segunda, a variedade das histórias. “VHS” tem contos sobre assombrações, lendas urbanas, maldições, vinganças e assassinatos, entre outros assuntos que podem dar origem a uma boa história de terror. No fim do ano passado, tirei o atraso e li “1618”, romance de Cesar Bravo que saiu em 2022. O texto do autor segue afiado, mas a amplitude de assuntos dessa vez me incomodou.
Em “1618” há vozes que surgem em aparelhos de rádio fora de sintonia, plantas misteriosas, celulares que recebem mensagens comprometedoras, fanáticos religiosos e outras estranhezas que não vou comentar para não dar spoiler. São muitos assuntos e, na minha opinião, nem todos são desenvolvidos plenamente. Funcionou bem no volume de contos; no romance, nem tanto.
A mesma coisa acontece com a grande variedade de personagens. Alguns deles, como Zé Espoleta, recebem destaque, mas não têm utilidade nenhuma na trama. É uma pena, pois o livro tem personagens muito bons, como o trio formado pelo técnico em eletrônica Thierry Custódio, o garoto Arthur e o cachorro Ricochete. Eu leria com prazer um livro inteiro sobre eles.

Apesar dessas questões, “1618” também tem pontos positivos. Cesar Bravo é um mestre em criar cenas de tensão e suspense, que deixam o leitor sem fôlego até o seu desfecho.
O narrador é um personagem à parte, que dispara frases irônicas e sarcásticas. A história se passa na fase final da pandemia de covid-19, no período pós-vacina, e Bravo não poupa críticas ácidas aos negacionistas. Os fanáticos religiosos também não passam impunes.
Quem já está habituado ao “bravoverso” vai curtir as referências às obras anteriores do autor. Como guitarrista, eu me diverti com os diálogos sobre guitarras, pedais de efeito e aparelhos valvulados. Achei surpreendentes e inusitados, no bom sentido, os personagens batizados com inspiração no mundo do futebol (os irmãos Thierry e Henry, e uma mulher chamada Sebastiana Lazaroni).
Mesmo que “1618” não tenha feito totalmente a minha cabeça, já coloquei o novo livro de Cesar Bravo, “Amplificador”, na minha lista de “desejados”. A obra, que acaba de ser publicada, é uma sequência do livro anterior e promete explorar mais a caverna de cristais, um dos principais cenários de “1618”.
Cesar Bravo é um autor prolífico e o “bravoverso” segue crescendo e fazendo cada vez mais barulho. Como leitor, estou pronto para aumentar o volume.
1618
Autor: Cesar Bravo
Editora: DarkSide Books
Preço: R$ 79,90 (368 págs.)
Onde comprar: Amazon | DarkSide Books
Livro recebido através da parceria com a editora.

