Resenha | ‘O Navio da Morte’, de B. Traven

O livro “O Navio da Morte” é fascinante por uma série de motivos. O primeiro é o mistério em torno da identidade do autor. B. Traven é um pseudônimo, provavelmente criado pelo ator e autor alemão Ret Marut — este nome, porém, também é inventado. Há quem defenda que ele era um filho ilegítimo de Emil Rathenau, o fundador da empresa AEG. Outros dizem que, na verdade, seu pai era o kaiser Guilherme 2º. Existem diversas pistas e evidências sobre sua verdadeira identidade, mas não há uma resposta completa e definitiva.

“O Navio da Morte”, porém, vai muito além desse mistério.

Logo na primeira página, o narrador — um marinheiro americano chamado Gales — diz que sua história não é uma aventura marítima, daquelas que seduzem jovens leitores e os levam ao trabalho no mar:

“O romantismo das histórias de marinheiros ficou no passado. Aliás, pra mim, esse romantismo nunca existiu. (…) Pode ser que, para capitães e timoneiros, tenha havido algum romantismo. Para a tripulação, jamais.”

Gales deixa claro que sua narrativa é sobre a vida dura dos trabalhadores, não sobre os comandantes e proprietários dos navios.

Gales começa seu relato contando como foi deixado pra trás na Europa pelo navio no qual trabalhava, no período posterior à Primeira Guerra Mundial. Na embarcação estavam todos os seus documentos, inclusive seu passaporte. Com esse incidente, é como se ele deixasse de existir. Não consegue provar sua identidade, sua nacionalidade e nem voltar ao trabalho. Começa a ser despachado clandestinamente de um país para outro, sem conseguir auxílio dos cônsules americanos que procura.

Essa primeira parte do livro tem ares kafkianos, seja pela dura crítica à burocracia, seja pelo absurdo das situações e interrogatórios vividos por Gales.

Detalhe da capa de “O Navio da Morte”, de B. Traven.

Mais adiante, ele finalmente consegue voltar a trabalhar, mas Gales só é aceito no Yorikke, um navio condenado que oferecia péssimas condições à sua tripulação.

A estadia de Gales no Yorikke ocupa toda a segunda parte do livro, que tem um tom muito forte de denúncia. O narrador conta como o trabalho era exploratório, como os marujos eram descartáveis e como as autoridades do navio estavam interessadas em outras atividades, como o contrabando. Uma série de regras internas impossibilitavam que os marujos abandonassem o trabalho no próximo porto.

A narração de situações extremas é equilibrada pela voz irônica de Gales. Ele sempre tem um comentário sarcástico e uma crítica às autoridades (e ao capitalismo) na ponta da língua. Isso torna a leitura bastante fluida, mesmo quando situações terríveis estão sendo apresentadas.

“O Navio da Morte” ainda tem uma terceira parte bastante tensa, que apresenta fatos pós-Yorikke — mas que não vou comentar para evitar spoilers.

Cena do filme “O Tesouro de Sierra Madre” (Dir. John Huston, 1948), que foi baseado no livro de mesmo nome de B. Traven. (Reprodução)

A leitura desse livro foi uma bela surpresa — apesar de B. Traven ser um autor consagrado, eu não conhecia seu trabalho. A edição também é muito caprichada, com ótimas soluções na diagramação e o uso de elementos que remetem a livros antigos. A tradução direta do original alemão é excelente, e o livro conta com um posfácio enriquecedor de Alcir Pécora — que, aliás, é um dos organizadores dessa coleção do selo editorial Quimera.

Para a minha alegria, já recebi da agência Oasys Cultural um segundo título escrito por Traven. Trata-se de “Os Catadores de Algodão”, em sua primeira edição brasileira, que também tem Gales como narrador e personagem central. A resenha dele sai em breve.


O NAVIO DA MORTE
Autor:
B. Traven
Tradução: Érica Gonçalves Ignacio de Castro
Editora: Selo Literário Quimera
Páginas: 320
Onde comprar: Amazon

Livro recebido através da parceria com a agência Oasys Cultural.


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