Resenha | ‘Os Perigos do Imperador’, de Ruy Castro

Livro ganhou o prêmio Jabuti de 2023 na categoria ‘romance literário’

O livro “Os Perigos do Imperador” tem um prólogo empolgante. Nele, Ruy Castro conta como teve acesso — em lances de muita sorte — a um caderno do poeta Sousândrade e a diversos escritos do jornalista irlandês James J. O’Kelly. Segundo o autor, Sousândrade e O’Kelly registraram nesses papéis informações sobre um evento que foi esquecido: um atentado contra dom Pedro 2º, ocorrido durante a viagem do monarca aos Estados Unidos, em 1876.

Castro explica que seu livro reconstitui esse acontecimento, reproduzindo fielmente trechos dos materiais encontrados, além de cartas e diários do imperador brasileiro. As únicas partes ficcionais presentes na obra são capítulos narrados em terceira pessoa, devidamente identificados, que servem para “preencher lacunas e fazer a história andar”.

Mas isso tudo é conversa fiada, lógico.

“Os Perigos do Imperador” é uma ficção, como indica o seu subtítulo: “Um Romance do Segundo Reinado”. O prêmio Jabuti de 2023, que o livro ganhou na categoria “romance literário”, deixou a questão ainda mais óbvia.

A viagem aos Estados Unidos e o contexto histórico são verídicos, mas o atentado é pura invenção.

Ainda assim, Ruy Castro faz com que muitos leitores não consigam distinguir o que é fato do que é ficção. Isso se deve, além do prólogo maroto, à pesquisa e à apuração rigorosas do autor.

O pano de fundo de “Os Perigos do Imperador” é riquíssimo em detalhes. Castro descreve a situação política do Rio de Janeiro à época, os jornais existentes na cidade, os hábitos da população e até a relação de dom Pedro 2º com suas diversas amantes. O itinerário da viagem aos Estados Unidos é descrito à risca, e as características dos personagens espelham as figuras reais. Assim, tudo que é narrado no livro poderia, em tese, ter realmente acontecido.

Como o autor costuma dizer, tudo em seus romances é verdade, exceto a trama.

Outro fator que favorece o efeito desejado por Ruy Castro é a forma como a obra foi construída. Inspirado por “Drácula”, o romance é fragmentado e tem diversos narradores, que contam a história através de reportagens, diários, cartas e anotações diversas. O autor sempre indica as fontes dos textos, que, lembre-se, teriam sido escritos por pessoas reais, como James O’Kelly — que foi correspondente do The New York Herald e cobriu a viagem do imperador — e Sousândrade, que era antimonarquista e vivia nos Estados Unidos em 1876.

Castro retrata dom Pedro com carinho, embora satirize algumas de suas características, como as constantes exibições de erudição. Mas me parece que o personagem preferido do autor é o intrépido O’Kelly.

Além do livro ser divertidíssimo, Ruy Castro tem o mérito de prender o leitor até o final, mesmo que o desfecho — o imperador não morre — seja conhecido. O clímax tem um ar hitchcockiano.

A qualidade do texto, no fim das contas, entrega quem é o verdadeiro autor do livro. O humor e a riqueza de detalhes de “Os Perigos do Imperador” são típicos de Ruy Castro — inclusive nos trechos que ele jura que não escreveu.


OS PERIGOS DO IMPERADOR — UM ROMANCE DO SEGUNDO REINADO
Autor:
Ruy Castro
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 200
Onde comprar: Amazon

Ebook recebido através da parceria com a Companhia das Letras.


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