Resenha | No coração do mar, de Nathaniel Philbrick

Há quase dois séculos, a tragédia do baleeiro Essex fascina e choca quem toma conhecimento dela. A história inspirou autores do calibre de Herman Melville e Edgar Allan Poe e foi contada inúmeras vezes. Um dos melhores livros sobre o assunto é este No coração do mar, do norte-americano Nathaniel Philbrick. Foi a partir dele que foi produzido o filme de mesmo nome, lançado em 2015. O longa é excelente, mas toma várias liberdades em relação ao livro. A obra de Philbrick dá uma ideia bem maior sobre os sofrimentos pelos quais passou a tripulação do Essex.

Um ataque inédito

O navio era de Nantucket, uma ilha norte-americana de apenas sete mil habitantes, cuja economia era totalmente baseada na caça às baleias. Não apenas isso: Nantucket era o maior polo mundial no mercado de óleo de baleia. A ilha prosperava continuamente pois a demanda pelo óleo era imensa, uma vez que ele era utilizado como combustível para a iluminação e como lubrificante nas novas indústrias que surgiam.

Devido a essa demanda, os baleeiros de Nantucket começaram a explorar mares pouco conhecidos por eles e a contratar marinheiros cada vez mais jovens e sem nenhuma experiência. Esse era o caso do Essex, que partiu de Nantucket no dia 12 de agosto de 1819, em direção a uma região ainda pouco explorada por eles no oceano Pacífico. Apesar da tripulação inexperiente (alguns nem sabiam nadar), o comando do navio ficou nas mãos de três jovens que já tinham viajado antes no Essex: o capitão George Pollard Jr. (de 28 anos), o primeiro imediato Owen Chase (22 anos) e o segundo imediato Matthew Joy (de 26 anos).

Devia ser apenas mais uma longa viagem de caça às baleias, mas o futuro destinado à tripulação daquele navio era terrível. Eu vou contar pois essas informações não chegam a ser spoilers (elas estão até na sinopse do livro): quando já estava há mais de um ano e dois meses no mar, o Essex foi atacado e destruído por uma imensa baleia branca – um fato tido como inédito até então.

Os vinte marinheiros se salvaram do naufrágio ao se dividirem em três botes, mas seus infortúnios estavam apenas começando… Longe da terra firme e contando apenas com o pouco que conseguiram salvar do navio (inclusive uma quantidade limitada de água potável e comida), os homens do Essex navegaram por cerca de três meses em mar aberto! Dá pra acreditar? Três meses em botes de pouco mais de 7,5 metros cada um! Nem todos sobreviveram por todo esse período, e os que conseguiram precisaram vencer o sol, a fome, a sede e enfrentar a loucura e o canibalismo.

Homens X cachalotes

Desde o princípio, a leitura de No coração do mar é muito dolorosa. Mesmo antes do naufrágio do Essex, é terrível perceber como a população de Nantucket não tinha nenhuma preocupação ambiental. É óbvio que no século XIX essa questão não era tão forte quanto atualmente, mas os homens dos baleeiros agiam como verdadeiras pragas nas ilhas e oceanos por onde passavam. Philbrick é muito detalhista em sua escrita, e a descrição da caça e morte das baleias é muito cruel.

No entanto, é preciso reconhecer a coragem desses homens. Eles ficavam anos longe de casa e, quando retornavam, passavam poucos meses com a família antes de voltarem para o mar. No momento da caça propriamente dita, eles embarcavam nos botes e enfrentavam, à curta distância, grupos de animais de até 60 toneladas. Segundo Philbrick, muitos marinheiros lamentavam a morte daqueles gigantes, mas eles sabiam que a cada baleia morta diminuía a distância entre eles e suas famílias.

A descrição dos momentos passados nos botes, após o naufrágio, também é muito macabra. É inimaginável pensar no que aqueles homens passaram. O desespero causado pela fome e a sede, a luta pela vida enquanto a esperança se esvai, a morte dos companheiros… O destino dos homens do Essex teve lances de sorte e azar, momentos de grande perícia náutica aliados a decisões equivocadas, instantes de coragem e fraqueza, além de coincidências que seriam consideradas inverossímeis se tivessem saído da mente de um escritor de ficção.

Uma história tão estupenda que inspirou Herman Melville a escrever Moby Dick, e Edgar Allan Poe a criar A narrativa de A. Gordon Pym.

Escritores
Da esq. para a dir.: Herman Melville, Edgar Allan Poe e Nathaniel Philbrick.

Livro x filme

Eu vi o filme antes de ler o livro e achei ambos muito bons, embora apresentem muitas diferenças entre si. O longa, dirigido por Ron Howard, explora uma suposta rivalidade entre o capitão George Pollard e o imediato Owen Chase que não existiu tão explicitamente na vida real. No filme, Chase é o grande protagonista, enquanto Pollard é mostrado como egoísta e totalmente despreparado para a liderança. No livro, Philbrick mostra como a força e disciplina de Chase foram fundamentais durante o período à deriva, mas passa uma imagem bem mais positiva de Pollard, baseada nos inúmeros relatos de quem conviveu com ele.

Outra diferença é que, no filme, a baleia branca realmente tem o propósito de destruir os homens do Essex, enquanto, no livro, são expostas algumas outras possibilidades (inclusive, sim, autodefesa) para o ataque do animal. A forma como Melville coletou informações para escrever Moby Dick também foi modificada no cinema.

Conclusão

Quem se propuser a ler No coração do mar vai se deparar com uma história impressionante, ainda que terrível. Nas palavras do próprio autor:

“O desastre do Essex não é uma história de aventura. É uma tragédia, que constitui também uma das maiores histórias verídicas já contadas.”

Os inúmeros detalhes utilizados por Nathaniel Philbrick em seu texto tornam a leitura um pouco truncada em alguns momentos, mas, com seu rigor jornalístico, o livro é bem acessível. Uma única sugestão à Companhia das Letras seria a inclusão de um glossário náutico, que seria de extrema ajuda ao leitor leigo.

Pra encerrar, confira o trailer do filme dirigido por Ron Howard (que, apesar das diferenças do livro, eu também recomendo):


Capa-No-coração-do-mar

Avaliação: 4.5 de 5.

NO CORAÇÃO DO MAR — A HISTÓRIA REAL QUE INSPIROU O MOBY DICK DE MELVILLE
Autor:
Nathaniel Philbrick
Tradução:
Rubens Figueiredo
Editora:
Companhia das letras
Páginas:
374
Onde comprar:
Amazon


Postado por Lucas Furlan

É formado em Comunicação Social e trabalha com criação de conteúdo para a internet. Toca guitarra e adora música e cinema, mas, antes de tudo, é um leitor apaixonado por livros.

2 comentários em “Resenha | No coração do mar, de Nathaniel Philbrick

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