Livro clássico analisa questões como ética jornalística e liberdade de imprensa
“O Jornalista e o Assassino” analisa um caso inusitado que teve origem em um crime terrível. Em fevereiro de 1970, Collette MacDonald, que estava grávida e tinha 26 anos, foi assassinada junto com suas filhas pequenas, de dois e cinco anos. O principal suspeito era o seu marido e pai das meninas, o médico Jeffrey MacDonald. Na época ele era médico dos Boinas Verdes e, por isso, foi julgado por um tribunal militar, que o absolveu. O caso, porém, foi reaberto e, oito anos depois, MacDonald foi julgado pela segunda vez. No novo julgamento ele foi considerado culpado e acabou condenado à prisão perpétua.
Mas para seguir em frente com a resenha, é preciso voltar para antes da condenação.
Enquanto aguardava o segundo julgamento, MacDonald conheceu o jornalista Joe McGinniss. Eles se deram muito bem e o réu sugeriu que McGinniss escrevesse um livro sobre o seu caso. A ideia era que a obra apresentasse o ponto de vista da defesa, além de render algum dinheiro para ser usado nos custos do processo.
McGuinniss topou e os dois se tornaram melhores amigos. O jornalista passou a acompanhar cada movimento da defesa e teve acesso a detalhes da vida íntima de MacDonald. Mesmo depois que o médico foi condenado e preso, eles continuaram se correspondendo por cartas. Nelas, o jornalista sempre afirmava que a sentença tinha sido injusta e que acreditava na inocência do amigo.
O livro foi lançado em 1983 e saiu com o título “Fatal Vision”. Como já era de se esperar, se tornou um best-seller. Mas a obra guardava uma surpresa. Em suas quase 700 páginas, McGuinniss retratou MacDonald como um narcisista patológico, que era infiel com a esposa, abusava de remédios e, pior de tudo, era o responsável pelos assassinatos.
Incrédulo e se sentindo traído, MacDonald — que sempre jurou inocência — decidiu processar o ex-amigo. É esse processo que interessa Janet Malcolm (1934-2021), uma das principais jornalistas americanas. Seria aceitável que um assassino condenado processasse um jornalista por causa de um livro?

Janet Malcolm entrevista advogados, testemunhas e o próprio MacDonald — após um primeiro contato, McGuinniss não quis mais conversar com ela — para abordar temas como liberdade de imprensa e ética jornalística. É interessante como Janet Malcolm adota uma postura extremamente crítica em relação à própria profissão. Segundo ela, todo jornalista trai a confiança do personagem sobre quem está escrevendo, pois, no fim das contas, o escritor sempre vai contar a história a partir do seu próprio ponto de vista, sem ser inteiramente fiel à versão de quem ele entrevista ou perfila.
É impossível falar sobre “O Jornalista e o Assassino” sem citar a famosa primeira frase do livro, que já irritou muitos colegas de profissão de Malcolm: “Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável.” Na obra, a autora é sarcástica em diversas ocasiões e faz comparações muito originais para comentar a relação entre jornalistas e fontes.
Se você não se interessa por jornalismo ou direito, pode achar “O Jornalista e o Assassino” maçante em alguns momentos. Eu gostei da leitura, mas é um tema que me atrai bastante, tanto que a obra foi minha escolha para o #DesafioVG2023 na categoria “um livro relacionado ao jornalismo”. Depois de ler, é fácil perceber porque Janet Malcolm era considerada uma jornalista brilhante e porque o livro, lançado em 1990, é visto hoje como um clássico.
O JORNALISTA E O ASSASSINO
Autora: Janet Malcolm
Tradução: Tomás Rosa Bueno
Editora: Companhia das Letras
Preço: R$ 42,90 (176 págs.); R$ 19,90 (ebook)
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