Resenha: ‘A Megera Domada’, de William Shakespeare

A peça inspirou comédias como “O Cravo e a Rosa” e “10 Coisas que Eu Odeio em Você”, mas tem um lado bastante polêmico

Muitos leitores chegam até “A Megera Domada” através das inúmeras adaptações que a peça ganhou, como a novela “O Cravo e a Rosa” e o filme “10 Coisas que Eu Odeio em Você”. Mas se engana quem pensa que essa obra de Shakespeare é apenas uma comediazinha romântica — pelo contrário, ela tem um lado bem controverso.

No centro da história estão duas irmãs: Bianca, a mais nova, e Catarina, a mais velha. Bianca é gentil, delicada e tem muitos pretendentes, mas seu pai, Batista, decide que ela só pode se casar depois da irmã. O problema é que nenhum rapaz quer saber de Catarina. Ela é geniosa, mal educada e agressiva: é a megera que dá nome à peça.

Entra em cena, então, Petrúquio. Interessado no dote que o futuro marido de Catarina vai receber, ele garante que não só vai se casar com ela, como vai conseguir “domar” a moça.

Eis a principal polêmica da peça. Petrúquio se casa com Catarina e, pra que ela o obedeça, faz coisas como deixá-la sem comer e sem dormir. A estratégia funciona e Catarina se transforma, chegando a fazer um longo discurso defendendo que as esposas devem ser obedientes e submissas aos maridos.

Antes que alguém sugira o cancelamento de Shakespeare, vamos com calma. É preciso levar em conta que “A Megera Domada” foi escrita no final do século XVI, quando as esposas realmente eram consideradas propriedades dos maridos. Além disso, não podemos esquecer que a peça é uma comédia, gênero que tem o exagero como uma característica importante.

Se Shakespeare foi machista ou não é uma questão que divide os críticos. Alguns afirmam que sim, sem dúvida. Outros dizem que o dramaturgo estava satirizando essa dinâmica matrimonial.

Enfim, é preciso ler pra tirar suas conclusões. E mesmo que a relação entre Catarina e Petrúquio tenha pouca graça, é possível dar gargalhadas com o arco de Bianca, especialmente com as artimanhas do pretendente Lucêncio e seu criado, Trânio, que ocupam um grande espaço da história.

A construção do texto também é ótima. A peça se inicia com um bêbado chamado Sly sendo alvo de uma pegadinha, e é pra ele que a peça “A Megera Domada” é apresentada. Temos assim uma peça dentro de outra peça. Pra completar, o texto de Shakespeare tem frases ágeis e repletas de jogos de palavras, trocadilhos e duplos sentidos — o primeiro encontro de Petrúquio e Catarina é impagável —, traduzidas brilhantemente nesta edição de bolso da L&PM pelo gênio Millôr Fernandes.

Capa do post: “Catherine and Petruchio”, de Charles Robert Leslie (via Wikimedia Commons).


A MEGERA DOMADA
Autor:
William Shakespeare
Tradução: Millôr Fernandes
Editora: L&PM
Páginas: 144
Onde comprar: Amazon


Lucas Furlan é formado em Rádio e TV e trabalha com criação de conteúdo para a internet. Toca guitarra e adora música e cinema, mas, antes de tudo, é um apaixonado por livros.

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