Resenha | ‘É assim que se perde a guerra do tempo’ é um romance belo e estranho

É assim que perde a guerra do tempo é um livro desconcertante. O leitor, desavisado, inicia a leitura esperando encontrar apenas mais uma história sobre inimigos que se apaixonam, mas acaba mergulhando num universo onde a estranheza surpreende, mas também confunde.

O principal motivo desse estranhamento é que os personagens e o contexto do livro são bastante peculiares, embora o romance se passe na Terra. Pra complicar, os autores, Amal El-Mohtar e Max Gladstone, não se propõem a dar muitas explicações.

Red e Blue, as duas protagonistas, atuam em organizações que estão em guerra: Agência e Jardim, respectivamente. As personagens viajam pelo tempo e pelo espaço, fazendo interferências que, como num efeito borboleta, vão gerar consequências favoráveis às suas equipes. As duas agentes conseguem se passar por pessoas comuns, mas estão longe de serem humanas como nós.

Podemos dizer que Red é uma androide que vem de uma realidade altamente tecnológica, enquanto Blue é de uma raça de seres conectados à natureza, que nascem ao ser semeados e são capazes de se transformar em animais. Descobrimos isso durante a leitura, mas não sabemos em detalhes de onde elas surgiram. Seriam a evolução da humanidade? São alienígenas?

Obviamente, os autores quiseram criar um contraste entre desenvolvimento tecnológico e a defesa do meio-ambiente. Seria esse o motivo da guerra?

A canadense Amal El-Mohtar e o americano Max Gladstone. (Foto: Wikimedia Commons)

Mesmo sendo inimigas, Red e Blue iniciam uma troca de correspondências. No princípio são mensagens provocativas, enviadas normalmente quando uma sabota a missão da outra. Com o passar do tempo, entretanto, essas cartas ganham novo significado. As personagens começam a se conhecer melhor, e também passam por um processo de autoconhecimento. Elas se apaixonam, mesmo sendo perigoso e proibido.

As correspondências são outro elemento que gera confusão na leitura. Elas não são cartas comuns, que poderiam ser encontradas e usadas de provas contra elas. Red e Blue enviam mensagens através de códigos que são “lidos”, por exemplo, em vapor de água, em lava incandescente, em peles de focas, em sementes comestíveis, por mais inusitado que tudo isso possa ser.

O conteúdo das cartas é inserido no texto. Com o passar do tempo, elas vão se tornando mais longas, íntimas e confessionais — embora também sejam escritas numa linguagem repleta de símbolos.

Pra aumentar o mistério, existe uma rastreadora perseguindo as protagonistas em suas viagens pelo tempo, que vão desde a pré-história até futuros onde existem guerras espaciais.

Como deve ter ficado claro até aqui, É assim que se perde a guerra do tempo é um livro extremamente criativo e que exige muita atenção. Amal El-Mohtar e Max Gladstone constroem um universo único, que pode ser confuso em vários momentos. Fiz uma primeira leitura e confesso que não fiquei muito entusiasmado — como, aliás, aconteceu com alguns leitores, apesar do livro ter recebido prêmios importantíssimos como o Hugo, o Nebula e o Locus.

Como se trata de uma obra curta, 192 páginas, resolvi fazer uma releitura algumas semanas depois. Tendo uma base para a leitura, construída no primeiro contato com o texto, mudei minha opinião e me dei conta que o livro é, sim, muito bom. Recomendo essa releitura pra quem não gostou da primeira vez.

Não digo que É assim que se perde a guerra do tempo é um livro perfeito. Os autores trabalham no limite da “falta de informação”. Se fossem um pouco além, talvez o romance se tornasse indecifrável. Também me incomoda que a paixão entre elas seja essencialmente platônica — embora exista uma bela explicação para o amor tão forte que sentem.

O livro é muito inventivo e original, e, no fim das contas, o que importa na história é esse amor. Assim como queremos que a tecnologia e a natureza andem de mãos dadas, Red e Blue percebem que é justo lutar — literalmente — para defender aquilo que sentem. O fato de as duas personagens serem do mesmo gênero torna É assim que se perde a guerra do tempo ainda mais necessário e atual.


É ASSIM QUE SE PERDE A GUERRA DO TEMPO
Autores:
Amal El-Mohtar e Max Gladstone
Tradução: Natalia Borges Polesso
Editora: Suma
Páginas: 192
Onde comprar: Amazon | Companhia das Letras

Livro recebido através da parceria com o grupo Companhia das Letras.


Postado por Lucas Furlan

É formado em Comunicação Social e trabalha com criação de conteúdo para a internet. Toca guitarra e adora música e cinema, mas, antes de tudo, é um leitor apaixonado por livros.

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